quinta-feira, 9 de abril de 2015

Cientista quer ser o primeiro a ter a sua cabeça transplantada para outro corpo

Cientista quer ser o primeiro a ter a sua cabeça transplantada para outro corpo

Médico Sergio Canavero diz que consegue fazer a cirurgia até 2017, mas a comunidade científica tem dúvidas. Há quem diga que o italiano é "louco". Cientista russo já se ofereceu para cobaia.

O cientista russo Valery Spiridonov, de 30 anos, voluntariou-se para ser a primeira pessoa a ter a sua cabeça transplantada para outro corpo. A cirurgia deverá realizar-se até 2017 e ser feita pelo controverso médico italiano Sergio Canavero, apesar das críticas da comunidade científica. Um especialista nova-iorquino diz mesmo que Canavero "é louco".

Spiridonov é um engenheiro informático e sofre da doença degenerativa muscular de Werdnig-Hoffman. Para ter um corpo saudável, Spiridonov quer que a sua cabeça seja transplantada para o corpo de um dador em morte cerebral. "Se tenho medo? Sim, claro que tenho", disse Spiridonov ao jornal inglês Daily Mail. "Mas têm que compreender que eu não tenho muitas escolhas. Se não tentar isto, o meu destino vai ser muito triste".

O médico Sergio Canavero, que defende que esta cirurgia é possível com técnicas que já existem, falou com Spiridonov pelo Skype, mas ainda não terá visto o seu processo médico. Canavero contou à televisão americana CNN que espera apresentar a proposta à Academia Americana de Cirurgiões Neurológicos e Ortopédicos, de cujo apoio precisa para poder realizar a cirurgia até 2017. Se não conseguir, vai procurar apoios chineses, e adiar o projeto para 2018.

Canavero diz que precisa de uma equipa de 150 enfermeiros e médicos a trabalhar em perfeita sincronia para realizar o procedimento, que deverá demorar cerca de 36 horas. "Creio que dois anos é o tempo necessário para que a equipa alcance a sincronização perfeita", disse Canavero à CNN.


Veja Sergio Canavero explicar o seu procedimento na conferência TEDx de Limassol, Chipre

O presidente da Associação Americana de Neurocirurgiões, Hunt Batjer, diz que a proposta de Canavero é impossível, e acrescenta: "Não deixaria que ninguém me fizesse isso. Há muitas coisas piores do que a morte", disse, citado pelo jornal Independent. Batjer acredita que até seria possível juntar as principais veias e artérias da cabeça ao corpo, assim como as vias aéreas, mas não acredita que seja possível combinar as duas partes da espinal medula, o que deixaria o doente incapaz de se mexer ou de respirar sozinho.

O diretor de ética no centro médico nova-iorquino de Langone, Arthur Caplan, diz que Canavero "é louco". Não acredita que exista fundamento científico na proposta. "Os corpos [dos doentes] iam ficar sobrecarregados com química a que não estão habituados e iam enlouquecer". Caplan aponta várias falhas ao projeto de Canavero, desde a falta de experiências anteriores feitas em animais, à quantidade de de medicamentos imunossupressores que seriam necessários para evitar que o corpo rejeitasse o transplante.

Mas Canavero acredita que a operação é possível com ciência que já existe. O seu projeto chama-se HEAVEN, um acrónimo das palavras inglesas para "processo de anastomose [junção de duas partes] da cabeça", e também uma palavra que significa "paraíso".