sexta-feira, 17 de abril de 2015

Baleia-cinzenta bate recorde de viagem de um mamífero


Uma baleia-cinzenta-ocidental, que passa a maior parte do ano junto da ilha de Sacalina na Rússia CRAIG HAYSLIP/UNIVERSIDADE ESTADUAL DE OREGON



Fêmea de nove anos nadou durante 69 dias, percorrendo 10.880 quilómetros. E trouxe novas questões sobre as duas populações de baleias-cinzentas que vivem de um lado e do outro do Pacífico.

Em 69 dias, uma baleia-cinzenta fêmea, a viver no Noroeste do oceano Pacífico, viajou 10.880 quilómetros. Esta distância é um recorde de uma migração feita por um mamífero, segundo um estudo publicado nesta quarta-feira na revista científica Biology Letters.

Varvara é uma baleia com nove anos que iniciou a sua viagem ao largo da ilha russa de Sacalina, no Noroeste do Pacífico, em 2011, terminando-a na zona de reprodução das baleias ao largo da Baixa Califórnia, já no México. Aqui, visitou os três lugares de reprodução da população das baleias-cinzentas do Nordeste do Pacífico.

Esta é “até agora a maior distância percorrida por um mamífero durante uma migração”, indicaram os investigadores da Universidade Estadual de Oregon, nos Estados Unidos, e da Academia de Ciências da Rússia, citados pela agência noticiosa AFP. A equipa observou o trajecto desta e de mais duas baleias-cinzentas graças a transmissores colocados nos animais, que emitiam a informação sobre a sua posição via satélite.

Depois, Varvara (Bárbara, em russo) voltou à região de alimentação, junto da ilha de Sacalina, usando uma rota que passou um pouco mais a sul do México. Ao todo, a sua jornada demorou 172 dia, correspondendo a uma distância de 22.511 quilómetros, um recorde de uma viagem de ida e volta para um mamífero.

O recorde anterior era detido por uma baleia-de-bossa: percorreu 9800 quilómetros entre as costas do Brasil e de Madagáscar, segundo um estudo de 2010.

Mas o novo estudo, além de descrever um novo recorde, obriga ainda os cientistas a questionarem-se sobre a identidade das baleias-cinzentas (Eschrichtius robustus), defendem os autores do novo artigo. As baleias-cinzentas do Nordeste e do Noroeste do Pacífico são consideradas duas populações distintas.

Durante muito tempo, esta espécie foi afectada pela caça comercial. Se a população que vive no Leste ficou diminuída devido à caça mas depois recuperou, a população ocidental continua ameaçada de extinção. Estima-se que o seu número seja de apenas 150 baleias.

“O facto de as baleias-cinzentas-ocidentais, em risco de extinção, viajarem numa extensão tão grande e interagirem com baleias-cinzentas-orientais foi uma surpresa e deixou muitas questões no ar”, diz Bruce Mate, director do Instituto de Mamíferos Marinhos da Universidade Estadual de Oregon e coordenador deste estudo. “Os estudos anteriores indicaram que há uma diferença genética entre as populações.”

A população oriental conta com 18.000 baleias-cinzentas. E o recorde de Varvara “sugere fortemente que as baleias do Noroeste do Pacífico são, na realidade, as baleias do Nordeste que se estão a alimentar em locais historicamente atribuídos” às zonas onde viviam as populações do Noroeste, sugerem agora os autores.

“Mas isto não quer dizer que não haja verdadeira baleias-cinzentas-ocidentais”, refere Bruce Mate, citado num comunicado da universidade norte-americana. “Mas, se existem, o seu número será ainda mais pequeno do que se pensava.” Por isso, os autores defendem agora uma avaliação mais profunda sobre a identidade da população de baleias que vive ao largo da ilha de Sacalina.

fonte: Público