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terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Psicocinese


Em Poltergeist, um dos maiores clássicos do cinema de terror, uma família que mora num subúrbio americano se vê rodeada de fantasmas. 

No começo, os visitantes parecem inofensivos e fazem brincadeiras inocentes, como mover objetos pela casa para o divertimento dos moradores. 

Aos poucos, no entanto, eles passam a aterrorizar os Freeling, a ponto de seqüestrarem a filha caçula, Carol Anne, por meio de um canal de televisão. 

Na vida real, fenômenos como esses que aparecem no filme produzido por Steven Spielberg não são levados muito a sério ou são atribuídos a seres sobrenaturais. 

Mas, para muitos parapsicólogos, a explicação para boa parte desses acontecimentos – tirando, é claro, episódios mais mirabolantes, como o seqüestro televisivo da garota – está no fenômeno da psicocinese, ou seja, na suposta capacidade da mente humana de agir a distância sobre a matéria. 

Isso porque, segundo essa teoria, a energia de cada um de nós pode se transformar e se exteriorizar. Dirigida pela mente, ela atuaria sobre objetos, movimentando-os e quebrando-os. O poltergeist (que em alemão significa “espírito barulhento”) seria um exemplo disso.

Nem todos os parapsicólogos aceitam a existência da psicocinese (conhecida também como telecinese), que, por sinal, é bem menos estudada que outros fenômenos ditos paranormais, como a telepatia e a clarividência. 

Mesmo entre estudiosos da área, há diferentes interpretações e muitas divergências em torno desses fenómenos. Na explicação de uma linha da parapsicologia, os casos de poltergeist, em geral, ocorrem com crianças na puberdade ou adolescentes que atravessam uma fase de crise ou instabilidade emocional. 

O inconsciente da criança liberaria energia – chamada de telergia – para influir no objeto. Entre os casos mais comuns de poltergeist estariam o de objetos que mudam de lugar de maneira brusca e violenta, janelas que são quebradas, lâmpadas que estouram de uma hora para outra e ruídos que ocorrem aparentemente sem nenhuma explicação plausível.

Um caso típico foi relatado no livro O que É Parapsicologia (Brasiliense, 1984), de Osmard Andrade Faria. Trata-se da história de uma família que morava em Suzano, a 38 quilómetros de São Paulo. 

O pai, Ezequias de Souza, havia abandonado a esposa e a filha, Marilda, de 15 anos, para viver com outra mulher. Depois de algum tempo, a relação se desfez e ele decidiu voltar a viver com sua antiga família. 

No entanto, Marilda, uma adolescente introvertida e agressiva, nunca perdoou a aventura extraconjugal do pai. Segundo o relato do livro, após a volta dele, a família passou a ser alvo de arremessos de pedra na residência. 

Mais tarde, uma série de combustões espontâneas começou a acontecer pela casa. Roupas se incendiavam inexplicavelmente e bolas de fogo desciam do teto para atingir os móveis. Apavorada, a família buscou a ajuda de autoridades e de um padre. 

Após saber dos problemas familiares, o padre achou que os acontecimentos estariam sendo provocados por forças inconscientes de Marilda e aconselhou que a adolescente fosse afastada do local. 

Com a mudança da menina para a casa dos tios, os incidentes cessaram. Quando ela retornou para a casa dos pais, no entanto, as bolas de fogo voltaram a acontecer. 

Diferentemente dos outros familiares, Marilda nunca se apavorava diante dos poltergeists. Ao contrário, a garota ria e parecia se divertir muito com eles.


Um dos casos mais estudados de psicocinese é o da russa Nina Kulagina. Ela ficou famosa por supostamente conseguir movimentar a distância objetos como palitos de fósforos, cigarros, bolas de cristal, pêndulos e saleiros. Numa das experiências mais curiosas, ela teria feito parar o coração de um sapo. 

O fenómeno teria ocorrido num laboratório em 1970. Um psiquiatra que tomou conhecimento do evento duvidou da história e se ofereceu para uma experiência semelhante. Os dois se sentaram um de frente para o outro a uma distância de 2 metros e meio. 

Eletrodos de um equipamento de eletrocardiografia foram colocados no psiquiatra. Em dois minutos, segundo testemunhas, o coração do médico disparou de forma assustadora. 

O desgaste, registado pelo eletrocardiograma, teria chegado a tal ponto que a experiência teve de ser imediatamente suspensa para que não ocorresse um incidente fatal. 

Para comprovar os poderes psicocinéticos de Nina, algumas de suas demonstrações foram gravadas em fitas de vídeo. Mesmo assim, cientistas mais céticos afirmam que as supostas habilidades da russa não sobreviveriam a um teste mais rigoroso. 

A psicocinese, assim como outros fenómenos parapsicológicos, pode se manifestar em qualquer pessoa, segundo Marcia Regina Cobêro, vice-presidente do Centro Latino-Americano de Parapsicologia (Clap), em São Paulo. 

“Todos os seres humanos têm faculdades parapsicológicas. Alguns manifestam, outros não. Se a pessoa, por exemplo, está nervosa, a ponto de explodir, ela pode fazer um vidro se partir. É um mecanismo de defesa. É melhor isso do que ter uma úlcera”, afirma. 

A parapsicóloga destaca, no entanto, que esses fenómenos são espontâneos, involuntários e incontroláveis, ou seja, não dá para usar o poder da mente com dia e hora marcados, como propagandeiam alguns supostos paranormais, como Uri Geller. 


O israelita ficou mundialmente famoso por entortar colheres, “desmaterializar” objetos e desviar raios laser, entre outras coisas. Fez fortuna com suas apresentações e chegou a visitar o Brasil nos anos 70 para participar de um programa na TV Globo.

Num dos episódios mais célebres, Uri Geller, após fazer demonstrações de seus supostos poderes, pediu aos ouvintes de um programa de rádio da Inglaterra que participassem de seu show. Alguns minutos depois, choveu telefonemas de todo o país. 

Pessoas relatavam que facas, garfos, colheres e chaves começaram a entortar e a se mexer espontaneamente. Relógios que estavam parados havia anos voltaram a funcionar. “Com uma audiência de milhões de pessoas e sob forte emoção, é possível que tenham ocorrido fenômenos parapsicológicos autênticos. 

Isso não significa que o responsável por tudo isso tenha sido Uri Geller. Provavelmente os próprios ouvintes, que talvez nem soubessem de seus poderes paranormais, foram os autores de alguns fenómenos”, diz Marcia.

Truques na manga

O grande problema são as fraudes que existem em torno dos fenómenos parapsicológicos, já que estes podem ser facilmente reproduzidos com truques. 

Segundo Marcia, os truques incluem coisas simples, como colocar um ímã debaixo de uma mesa e fazer moedas se movimentarem, colocar fios de náilon para deslocar objetos ou passar um líquido em um objeto de metal, fazendo com que minutos mais tarde ele amoleça e entorte – uma técnica bastante usada pelos chamados “entortadores” de colheres. 

Um ambiente com pouca iluminação e cercado de forte emoção também ajuda, como costuma ocorrer nas apresentações de mágicos em geral.

Além de mover objetos sem tocá-los, a psicocinese inclui outros tipos de experiências, como a suposta cura de doenças por meio do poder da mente. 


O mineiro Thomaz Green Morton, que nos anos 80 fez fama como um guru de estrelas da TV, foi tido como alguém capaz de realizar esse tipo de fenómeno. Outra forma de manifestação da psicocinese é a levitação. 

Em diferentes épocas se considerou a levitação um “milagre de Deus” ou um reflexo da “possessão demoníaca”. A parapsicologia define a levitação como a suspensão do corpo humano por meio da energia vital. 


A explicação dos estudiosos é que, em estados de grande misticismo ou emotividade, certas pessoas poderiam elevar-se no ar porque, em determinado momento, desprenderiam um grande volume de energia orgânica. 

No entanto, esse fenómeno é extremamente raro e só ocorreria de forma espontânea e incontrolável. Não há registos de casos de levitação ocorridos em condições de laboratório.

Só de porre

Outra manifestação psicocinética é a transferência de imagens mentais para objetos. Uma das histórias mais célebres é a do americano Ted Serios, que vivia em Chicago e era tido como alguém com personalidade psicopática. 


Serios ficou conhecido por supostamente conseguir produzir imagens positivas em filmes virgens por meio da impregnação mental. Segundo relatos, ele transferia imagens para os filmes olhando fixamente para a lente de uma Polaroid. 

Nesse tipo de máquina fotográfica, os filmes são revelados na hora. O detalhe é que o americano só conseguia fazer boas imagens após beber várias latas de cerveja e algumas doses de uísque. 

Uma série de experimentos foi feita com Serios, mas os cientistas reclamaram que não havia condições para evitar truques. Motivo: Serios se recusava a fazer o experimento quando as condições impostas pelos cientistas eram muito rigorosas.

Como se vê, a psicocinese é um tema envolto em polémicas e divergências. Nenhuma resposta simples pode ser dada, já que diferentes pessoas exigem diferentes padrões de comprovação. 

Fenómenos psicocinéticos existem? 

Bem, considerando as evidências experimentais, a resposta é: talvez. Se levarmos em conta os resultados obtidos em laboratórios, que se repetem com regularidade e que podem ser explicados com as leis da ciência conhecidas, a resposta é: não. Mas isso não significa que ela necessariamente não exista. 

Achar que a ciência tem respostas para tudo é um erro. No século 19, as pessoas não conheciam a radioatividade, apesar de ela já existir. 

O grande desafio para os que estudam a parapsicologia é conseguir incorporar ao âmbito do normal e do natural, dentro de uma teoria explicativa satisfatória, fatos que durante muito tempo foram tidos como anormais, supranaturais ou paranormais. Ou seja, fazer com que o sobrenatural seja visto como normal.

Efeitos invisíveis

Testes em laboratório buscam detectar manifestações psicocinéticas imperceptíveis a olho nu.

Os fenômenos psicocinéticos, que os especialistas costumam abreviar como PK (do inglês psychokinesis), se caracterizam pela ação da mente sobre a matéria. 

Quando essa ação é diretamente observável, como no caso de um movimento de objetos sem uma explicação aparente, é chamada de macro-PK. Se a manifestação não é observável a olho nu, ou seja, se seus efeitos são fracos, leves e microscópicos, denomina-se micro-PK.

Para testar se a mente pode realmente influenciar a matéria, dificilmente você encontrará um cientista analisando “entortadores” de colheres como o israelense Uri Geller, mesmo porque pessoas como ele não são levadas muito a sério. 

A maior parte dos estudos nessa área envolve testes de micro-PK, cujos efeitos podem ser inferidos apenas estatisticamente. A micro-PK pode ser verificada com a ajuda de um equipamento chamado gerador de números aleatórios (GNA). 

Essa máquina produz apenas dois resultados (0 ou 1), numa sequência aleatória. Numa experiencia típica, um sujeito deve tentar alterar mentalmente a distribuição dos números aleatórios, ou seja, ele deve fazer com que a máquina produza mais 1 do que 0, ou o contrário. 

É como se ele lançasse moedas várias vezes e procurasse, deliberadamente, tirar mais caras do que coroas, ou vice-versa. O esperado é que, ao final de uma série de tentativas, ocorra 50% de resultados de cada um.

Em 1989, o engenheiro e parapsicólogo Dean Radin e o psicólogo Roger Nelson publicaram uma meta-análise do conjunto de resultados obtidos por esse tipo de experimento. 

Fazer uma meta-análise significa combinar resultados de diferentes estudos para obter um resultado estatisticamente significativo. Radin e Nelson analisaram mais de 800 experiencias de micro-PK, realizados por mais de 60 investigadores ao longo dos 30 anos anteriores. 

O resultado é que o índice de acerto foi de 51%. Aos olhos de um leigo, a diferença pode parecer pequena, mas a probabilidade de esse resultado ocorrer por acaso é de uma em um trilhão (para você ter uma ideia, a probabilidade de acertar na mega-sena, com a aposta mínima, é de uma em 50 milhões).

Pelo fato de o estudo envolver um número gigantesco de pessoas, os cientistas afirmam que esse desvio de 1% é relevante e consistente. 

Nos aparelhos monitorados para controle, sem uma pessoa para tentar influenciá-los, o resultado foi muito próximo da probabilidade normal, de dois para um. 

Os parapsicólogos comemoraram o resultado, que interpretaram como prova de que a consciência humana pode afetar o comportamento de sistemas físicos aleatórios. 

No entanto, outros cientistas, como o físico Philip W. Anderson, ganhador do Prémio Nobel, contestaram a experiencia e o método estatístico utilizado nos estudos, e a questão segue sem consenso. 


quinta-feira, 27 de abril de 2017

Agentes secretos em Júpiter: por que CIA contratou parapsicólogo lendário?

Ficção científica

Os arquivos recém-publicados da CIA, que contêm cerca de 13 milhões de páginas de documentos desclassificados, sugerem, além do monitoramento de aparições de Óvnis, no início dos anos 70, que agentes de inteligência americanos, com ajuda do lendário parapsicólogo Ingo Swann, tentaram descobrir o que estava acontecendo no planeta Júpiter.

Projeto Stargate era o nome de código da unidade secreta do exército dos EUA, fundada em 1978 em Fort Meade, estado de Maryland, pela Agência de Inteligência de Defesa (DIA, na sigla em inglês) e SRI International (subcontratada da Califórnia) para investigar o potencial de fenômenos paranormais em ações de inteligência interna e militar.

Ingo Douglas Swann era o homem por trás do projeto Stargate. Ele era um alegado parapsicólogo, artista e autor conhecido por ser o cocriador, juntamente com Russell Targ e Harold Puthoff, da "visão remota".


Ingo Swann

A ideia de controle de visualização remota era um processo no qual os visualizadores poderiam ver um local determinado sem ter nada além de suas coordenadas geográficas, e foi desenvolvido e testado por Puthoff e Targ, com financiamento da CIA.

O documento de 13 páginas recém-publicado no site oficial da CIA conta sobre uma dessas sessões com Swann em que ele supostamente transferiu sua consciência para o planeta Júpiter.

O experimento era controlado por Harold Puthoff e, de acordo com o relato, durante o experimento Swann, usando o poder de seu pensamento visitou o planeta distante. O experimento é datado de 27 de abril de 1973.

De acordo com Swann, no espaço à direita da sala ele conseguia ver Júpiter, localizado a muitos milhões de quilômetros de distância.


Sonda parapsicológica experimental no planeta Júpiter

Ele podia ver como ele estava brilhando com uma luz ofuscante. Ele podia olhar para ele de todas as direções de seu olhar mental. No início, tudo era visto em miniatura e, em seguida, tudo de repente se expandiu.

"Essas visões estão dentro de mim e, em seguida, do lado de fora. Há um tom amarelado no espaço e se veem objetos escuros através dele. Será que são outras luas de cores ou densidades contrastantes? Me parece que há 17, algumas ainda desconhecidas dos cientistas da Terra, muito mais perto de Júpiter e também surge o sentimento que alguns deles têm sido e estão sendo gerado pela ação conclusiva e vulcânica no interior…", disse Swann, de acordo com o documento.

O parapsicólogo também "viu" anéis ao redor de Júpiter, mas ele disse que eles não eram tão perceptíveis como os de Saturno.

Mais tarde, em 1979, a sonda espacial Voyager confirmou a existência dos Anéis de Júpiter, contudo, a hipótese de sua existência foi apresentada pelo astrônomo soviético Sergei Vsekhsvyatsky na década de 1960.

Talvez tenha sido Swann quem forneceu à CIA informações sobre antigas civilizações em Marte.

O projeto Stargate foi lançado em 1970, depois de a CIA descoberto que a União Soviética estaria gastando até 60 milhões de rublos por ano para pesquisa em psicotrônica.

Esta conclusão foi feita pela CIA com base em um livro publicado por dois jornalistas do Canadá, Sheila Ostrander e Lynn Schroeder, que visitaram a União Soviética no início da década de 1970. Os autores continuam até hoje publicando livros sobre parapsicologia.

Depois de quase três décadas, a CIA concluiu que o programa Stargate não deu resultados tangíveis e seus líderes foram suspeitos de ajuste de dados em vários experimentos aos seus objetivos.

Mais tarde, se tornou público que Harold Puthoff, que, de acordo com suas próprias declarações, também tinha a habilidade de "visão remota", a obteve depois de alcançar o mais alto nível de iluminação na classificação da Igreja da Cientologia.

Outro membro desta igreja é Ingo Swann, que, por sua cooperação com a Cientologia, foi expulso da Associação Americana de Parapsicólogos (ASPR) em 1972.

Alguns especialistas em inteligência argumentaram que as ações de Puthoff e Swann faziam parte da chamada "Operação Branca de Neve" da Igreja da Cientologia, que visava introduzir 5.000 agentes em uma variedade de agências governamentais, incluindo nas fileiras das Forças Armadas dos EUA.

fonte: Sputnik News

domingo, 23 de abril de 2017

Portugal do além


Histórias do outro mundo e de outros tempos.

A alma penada de uma costureira de Torres Novas cuja máquina se fez ouvir por todo o país, a dupla portuense que apaixonou o Congresso Espiritualista de Paris e a moda das mesas girantes que originou polémicas acintosas nos jornais da época são alguns dos insólitos episódios narrados por Joaquim Fernandes no segundo volume da História Prodigiosa de Portugal.

Depois dos Mitos & Maravilhas dos séculos XII a XVIII chega agora a vez das Magias & Mistérios dos séculos XIX e XX, ambos editados pela Verso da História. «São os quatro M que compõem a História do Inconsciente Coletivo Português. É a história na sua profundidade máxima porque tem que ver com as nossas crenças, as superstições básicas que nos movem», diz Joaquim Fernandes, professor universitário e cofundador do Centro Transdisciplinar de Estudos da Consciência da Universidade Fernando Pessoa. As principais fontes foram os jornais da época que então conheciam um dos seus mais vibrantes períodos. Os fenómenos mágicos e misteriosos foram um rastilho fácil para explosivas querelas epistolares repletas de sarcasmo e ironia. O Jornal de Notícias e O Século, jornais populares e regeneradores, amplificavam e destacavam os eventos inexplicáveis. Já A Província e O Primeiro de Janeiro, marcadamente progressistas e positivistas, asseguravam o primado da ciência. Por fim, A Palavra e A Nação, da Igreja Católica, repudiavam tudo o que afrontasse os seus dogmas. Um fenómeno em concreto colocaria todos em confronto.

«Quando chegam a Portugal, em 1853, as mesas girantes animam sobretudo os estratos burgueses e aristocráticos», conta Joaquim Fernandes. O divertimento, como era então encarado, consistia em reunir várias pessoas com as mãos no tampo de uma mesa de pé-de-galo à espera que esta se mexesse. «Alguns dos nossos mais ilustres homens da ciência como José Vicente Barbosa du Bocage ou Latino Coelho vão debruçar-se sobre o tema e tentar encontrar uma explicação para os fenómenos anunciados.»
A loucura das mesas chega a tal ponto que algumas sessões das Cortes Gerais ficam quase vazias. É que Francisco Margiochi, Par do Reino e secretário das Cortes, promovia jogos de mesas girantes no seu gabinete e era lá que todos queriam estar. «Naquela fase, as mesas eram um entretenimento puro, como jogar às cartas. Ia-se para clubes e cafés, como o Martinho da Arcada ou o Marrarre, jogar às mesas girantes.»

Porém, nas décadas finais do século XIX, após a Codificação Espírita de Alan Kardec, as mesas adquirem a fama de «promover o contacto com o outro lado. Todos querem comunicar com os espíritos de entes vérsia sobre a legitimidade ou o ridículo desta prática e uma reação violentíssima da Igreja e da imprensa mais positivista», com acusações de «envenenamento do povo» pela «seita de Kardec» e por «especuladores espiritistas» que se aproveitam de «cabeças desnorteadas».


A dupla portuense que encantou Paris

Mesmo com a forte oposição católica, os assuntos espíritas apaixonavam Portugal. Exemplo disso são os muitos relatos do I Congresso Espírita e Espiritualista, em Paris, que, em setembro de 1900, juntou 80 mil espíritas e estudiosos e onde brilharam o advogado Sousa Couto e a médium Marinha Correia.
O jurista portuense relatou como a medium, natural da Foz do Douro, «dava autógrafos completos e seguros de pessoas falecidas como o rei D. Luís, Castilho, Mouzinho da Silveira, etc.». E também «obtivera comunicações em línguas que esta senhora desconhece por completo, como é o árabe».

Mas, mais impressionante ainda, ela disporia do dom da «visão à distância», conseguindo «percorrer sucessivamente os planetas Júpiter, Saturno, Marte e Úrano, descrevendo-os com dados superiores aos recursos dos seus conhecimentos». A dupla fez tanto sucesso que, findo o congresso, permaneceu em França, concedendo sessões privadas a altas personalidades, dando autógrafos de Vítor Hugo e Napoleão e desencadeando «luminosas fosforescências vistas por todos», relatava, à época, o JN. Estes feitos foram logo contestados pelos jornais positivistas e católicos. O cronista Rigoletto, da Voz Pública, reagia sarcasticamente ao deslumbramento: «O facto de ter uma visão planetária coloca essa predestinada dama à altura do mais aperfeiçoado instrumento ótico. Com efeito, se ela possui esse inesperado dote, fechem-se desde já todos os observatórios do país e fique S.ª Ex.ª encarregada de fazer em sua casa todos os boletins.»

O livro cita vários deliciosos excertos de artigos e crónicas, estocadas na forma escrita, que, num duelo a três, ficariam para a história. Joaquim Fernandes considera mesmo que, «sob o olhar crítico de Sampaio Bruno, o triângulo impresso Jornal de Notícias – A Província – A Voz Pública, testemunhou desta sorte, na «bela época» nortenha, um vasto e precioso cadinho de puras crenças, emoções à flor da pele e positivismo cego. Um retrato ao vivo, flagrante e inesperado, de um Porto burguês, febrilmente apostado em ligar-se ao «outro mundo».

A costureira viral

Graças ao poder massificador da imprensa periódica, que relatava sem pudores os «fenómenos inexplicáveis», o fascínio pelo oculto espalhou-se por todo o país. O enigma da costureira – para o autor «o mais intrigante caso de histeria auditiva de massas sucedido em Portugal» – seria o melhor exemplo dessa brutal disseminação.

O caso surge pela primeira vez a 1 de Setembro de 1920 n’ O Século, que relata «o misterioso fenómeno que há uns tempos se faz notar nesta povoação [Meia Via, Torres Novas], o qual e segundo os espíritos mais supersticiosos é atribuído a uma alma penada de uma costureira que, em vida e quando de uma doença que a ia vitimando, prometera uma máquina de costura à Virgem Mãe de Deus caso a salvasse da enfermidade, promessa que não cumpriu e que agora expia andando de casa em casa, de terra em terra». Por isso, ouvir-se-ia «um ruído semelhante ao de uma máquina de costura», não só «em casa de gente religiosa ou supersticiosa mas também na de ateus e materialistas irredutíveis». O jornal garantia que já teria havido réplicas no Entroncamento, Golegã, Riachos, Chamusca, etc. Mas a costureira não iria ficar só pelo distrito de Santarém.

A 14 de setembro, o JN titulava: «Um fenómeno sensacional. O caso da costureira de Torres Novas sucede igualmente no Quartel do Carmo do Porto. Trata-se de um facto misterioso que ninguém sabe explicar com exatidão.» Seis dias depois, O Século voltava à carga noticiando anteriores aparições na capital: «Deste mundo ou do outro? A costureira em Lisboa. Manifestou-se há três meses em casa de um comerciante da Rua do Carmo.» A disseminação ganha contornos imparáveis. «Hoje, chamar-lhe-íamos viral», diz Joaquim Fernandes. Aos diários chegam testemunhos de audições da máquina da costureira do Minho ao Algarve. Na imprensa avançam-se explicações para o insólito ruído, que vão das teses psíquicas às alterações digestivas. O caso conhece o seu expoente máximo a 27 de setembro quando milhares se juntam em torno do marco postal da Ilha dos Galegos, em Lisboa, onde, alegava O Século, a máquina da costureira deveria soar às 13.00. Porém, nada se escutou. Na edição seguinte, o jornal confessava que tudo não tinha passado de uma «blague jornalística» para mostrar «até que ponto pode ser levado o poder da sugestão». Todavia e mesmo após a revelação do embuste, a lenda da costureira persistiu até hoje na memória de inúmeras localidades de norte a sul do país.

Um dos aspetos mais interessantes do livro é a revelação do modo como a comunidade científica se interessou e estudou estas Magias & Mistérios. Por exemplo, a primeira abordagem nacional ao Magnetismo Animal – o atual Hipnotismo Clínico – ocorre na Universidade de Coimbra. A prática vai entusiasmar os lentes e mais ainda os estudantes que «diligentemente vão tentar hipnotizar as prostitutas da cidade para que estas lhes relatem os pormenores mais escabrosos das suas atividades», conta Joaquim Fernandes.

Também relativamente ao espiritismo, em 1900, houve «uma tentativa muito séria de, através de processos físicos, confirmar se estávamos ou não na presença de uma efetiva transposição do plano do astral para o plano terminacional», diz o professor. Porém, esses estudos foram sendo abandonados e, com a instauração do Estado Novo e consequente perseguição, os fenómenos e cultos espíritas quase desapareceram das ruas e da memória, apenas permanecendo em lendas e no fundo dos arquivos dos jornais.

Aceitar tudo, mas não acreditar em nada

Joaquim Fernandes queixa-se de que «do ponto de vista da historiografia, tem havido muito pouco trabalho sobre estas áreas mais profundas da história». Por isso defende que «estas temáticas devem ser tomadas a sério e devem ser tratadas dentro das paredes da Academia». Pela sua parte, o professor faz o que pode, por exemplo, com a sua tese de Doutoramento em História das Ciências: O Imaginário Extraterrestre na Cultura Portuguesa – do fim da Modernidade até meados do século XIX. Esta foi a primeira abordagem académica sobre a temática em toda a Europa e foi publicada em 2014, com o título Moradas Celestes, na Âncora Editora.

Entre os seus trabalhos destacam-se ainda três livros, em colaboração com a colega docente Fina D’Armada, sobre as aparições de Fátima. Neles, os autores levantam a hipótese de que, em 1917, os três pastorinhos, na realidade, não avistaram Nossa Senhora, mas sim uma entidade extraterrestre, um ovni (objeto voador não identificado). Porém, a Igreja Católica e, depois o Estado Novo, apropriar-se-iam e reinterpretariam as aparições para a sua própria promoção.

Brevemente, Joaquim Fernandes irá publicar um terceiro volume sobre a História do Inconsciente Coletivo Português. Chamar-se-á Portugal Misterioso e abordará mais aspetos mitológicos, inclusive desde a pré-história. «É importante manter vivo este espírito crítico e uma abordagem académica porque, sendo postas do lado da barreira não académica, estas coisas correm sempre o risco de serem alteradas, manipuladas, transformadas em pequenas religiões, em pequenas seitas, e distorcidas até em termos do aproveitamento comercial», justifica Joaquim Fernandes.

Daí também a importância do Centro Transdisciplinar de Estudos da Consciência da Universidade Fernando Pessoa, que dirige. «Cabe lá tudo o que seja o desconhecido ou o menos conhecido, mas sempre numa perspetiva de crítica distanciada. Não assumimos nada por adquirido. Até porque temos a consciência de que num conjunto lato de questões ainda estamos na fase da pré-história do conhecimento, e assim continuaremos. A nossa ideia é: aceitamos tudo mas não cremos em nada.»


segunda-feira, 4 de maio de 2015

Você já ouviu falar de crianças índigo? Afinal, o que é isso?


"Crianças índigo" é o termo que descreve crianças consideradas especiais para a parapsicologia. Para investigadores que defendem a teoria, os índigos seriam um “novo tipo de humano”, vindos numa nova geração, a partir da década de 80, com habilidades capazes de implementar “nova era” na Terra.

Os índigos seriam então os responsáveis por uma transformação social, educacional, familiar e espiritual em todo o planeta, sem qualquer barreira criada com fronteiras ou classes sociais.

As principais características dessas pessoas seriam destacadas em habilidades sociais refinadas, como uma sensibilidade maior, um desenvolvimento mais profundo de questões éticas e morais, além de personalidades fortes, que fazem com que os índigos se destaquem de outras crianças.

Crianças índigo e crianças prodígio

Alguns dos elementos que confundem crianças índigo com crianças prodígio são as reações a lideranças autoritárias, uma vez que os primeiros que não dão explicações ou alternativas a regras (apresentando um problema para pais com conceitos mais tradicionais de educação), além da facilidade de encontrar rapidamente soluções melhores para a realização de tarefas e uma criatividade acima do normal.

As crianças índigo também não seriam tímidas e não aprenderiam lições com o sentimento de culpa. Outra característica peculiar é que, desde pequenos, elas demonstrariam uma sensação de ter tarefas específicas e importantes no mundo.

A energia desses pequenos seria muito forte e, se não estiver equilibrada, isso causaria reações diferentes para cada um deles, como o desenvolvimento de problemas de ansiedade, depressão ou até mesmo agressividade.

Com toda essa energia, os índigos também seriam extremamente sensíveis a mudanças no ambiente e problemas com alimentos. Consequentemente, eles também teriam uma intuição avançada, percebendo ou pressentindo coisas que outras pessoas não notariam.

Basicamente, as crianças índigo ajudariam a humanidade a diminuir a distância entre os pensamentos e as ações, induzindo os cidadãos de todo o planeta a agir de forma autêntica. Além disso, elas também seriam capazes de ensinar as pessoas ao seu redor a mudar o foco individual para o coletivo – ou para o bem-estar do próximo.

Embora existam centenas de pesquisas sobre as crianças índigo, não existe qualquer comprovação científica sobre o suposto fenómeno. Por isso, a classificação de crianças dessa forma é rejeitada por conselhos de pediatria, além de especialistas em educação infantil em todo o mundo. A principal fraqueza da teoria é a falta de bases concretas e uma classificação considerada vaga pela comunidade científica.

fonte: Megacurioso