quinta-feira, 23 de abril de 2015

Cientistas chineses alteram pela primeira vez os genes de um embrião humano


Fotografia © Lisa Soares / Global Imagens

Resultados da investigação foram publicados na revista científica Protein & Cell e confirmam rumores que já circulavam há meses na comunidade científica de que a experiência tinha sido feita.

Pela primeira vez no mundo, um grupo de cientistas chineses alterou os genomas de embriões humanos, fazendo mudanças genéticas logo após a fertilização, quando os embriões tinham acabado de se formar. A alteração genética de embriões humanos levanta questões éticas e médicas que dividem os cientistas e a sociedade.

Os resultados da investigação foram publicados na semana passada, sem publicidade, na pequena revista científica Protein & Cell, e confirmam rumores que já circulavam há meses na comunidade científica de que a experiência tinha sido feita. Os cientistas da universidade de Sun Yat-sen, na China, usaram um método de edição genética para alterar o código genético de embriões humanos. Para evitar algumas críticas éticas possíveis, os investigadores usaram embriões "não viáveis", ou seja, embriões que nunca poderiam resultar num bebé, que foram recolhidos numa clínica de fertilidade.

No entanto, como sublinha à revista Nature o investigador no campo das células estaminais George Daley, que não esteve envolvido nesse estudo, a investigação "é um caso de referência, e também uma advertência". O cientista explica que o estudo é um aviso a qualquer pessoa que acredite que a prática está pronta a ser aplicada em embriões humanos para erradicar doenças genéticas.

A Nature relembra que a edição genética de embriões humanos levanta questões éticas. Por um lado, poderia ajudar a erradicar doenças genéticas, ao retirar os genes que as causam momentos após a formação do embrião. Neste caso, os cientistas procuraram modificar os genes responsáveis por um tipo de anemia chamado beta talassémia, uma doença de sangue que pode ser fatal.

Por outro lado, a comunidade científica preocupa-se com as implicações dessa edição genética: como as mudanças feitas ao genoma são hereditárias, não é possível prever que efeitos uma alteração no genoma poderá causar mais tarde, nos descendentes da pessoa que resultar de um embrião alterado. Muitos investigadores também temem que qualquer tipo de estudo no sentido de fazer edições no embrião humano possa criar oportunidades para um uso antiético ou perigoso dessas técnicas.

"Achamos que [as técnicas] ainda são demasiado imaturas"

No caso do estudo realizado pelos investigadores chineses, cuja equipa foi liderada por Junjiu Huang, foram já encontrados inúmeros obstáculos à aplicação destas técnicas de edição genética, que já foram experimentadas noutros animais, em embriões humanos para aplicações médicas. A equipa usou 86 embriões humanos, de apenas uma célula, nos quais injetou um sistema de enzimas que causaria a alteração genética desejada. Esperava-se que as restantes células do embrião, que se desenvolveriam dessa primeira, reproduzissem a alteração genética.

Dos 86 embriões, 71 sobreviveram à injeção. Os cientistas deram 48 horas para que os embriões desenvolvessem mais células e voltaram a estudá-los geneticamente. Descobriram que a edição genética só tinha funcionado em 28, e que apenas uma pequena fração desses continha a alteração genética procurada. Também se aperceberam de que em muitos casos tinham acontecido mutações genéticas indesejadas, além da pretendida, mutações essas que podem ser prejudiciais.

Devido a estes entraves, os cientistas chineses dizem que vão parar de fazer experiências com embriões humanos enquanto a técnica não estiver mais desenvolvida. "Foi por isso que parámos", contou à revista Nature o principal investigador, Junjiu Huang. "Achamos que [as técnicas] ainda são demasiado imaturas". O trabalho, publicado na pequena revista Protein & Cell, foi rejeitado pelas mais prestigiadas Nature e Science.