segunda-feira, 6 de abril de 2015

Há uma nova espécie de mamífero na ilha do Príncipe


O musaranho-fingui come insectos


Musaranho-fingui tem cerca de dez centímetros de comprimento


O biólogo português Luís Ceríaco na ilha do Príncipe

Foi identificado pela primeira vez em 1887, mas foram precisos 127 anos para que se chegar à conclusão de que é uma nova espécie. O musaranho-fingui acaba de nascer oficialmente, nas páginas de uma revista científica.

Passava já quase uma semana desde a sua chegada à ilha do Príncipe e as armadilhas colocadas nos pontos mais estratégicos ainda não tinham dado qualquer resultado. “Metemos as armadilhas todas nos sítios perfeitos para aquele animal e zero. Nada! É engraçado que as populações estavam bastante interessadas em ajudar e insistiam até para que puséssemos as armadilhas nas suas casas”, conta Luís Ceríaco, biólogo e curador-adjunto de herpetologia do Museu Nacional de História Natural e da Ciência (Muhnac), em Lisboa. “Dei por mim, de facto, por baixo das camas e das mesas das casas das pessoas a meter as armadilhas. Mas zero, não deram em nada.”

Foi então, em Março de 2013, durante uma caminhada de manhã cedo numa estrada de terra batida a caminho do Pico Papagaio no Parque Nacional do Ôbo – o pico mais próximo da cidade de Santo António do Príncipe, de floresta cerrada –, que a equipa liderada por Luís Ceríaco apanhou finalmente o primeiro exemplar de um musaranho procurado há mais de um século.

“No total, apanhámos quatro exemplares, e sempre muito perto das populações, o que nos deixou a ideia de que é um animal que aproveita muito a proximidade ao ser humano para o alimento e tudo mais.”

Crocidura fingui, ou musaranho-fingui, é agora o mamífero insectívoro mais recente a ser reconhecido pela comunidade científica. Identificado e descrito por uma equipa de biólogos portugueses (do Muhnac e da Universidade de Évora) e franceses (do Museu de História Natural de Paris, ou MNHN), é uma espécie exclusiva da ilha do Príncipe, recentemente classificada como Reserva Mundial da Biosfera da UNESCO.

Foi no âmbito do seu doutoramento na Universidade de Évora – dedicado à história da zoologia dos séculos XVIII, XIX e XX – que Luís Ceríaco encontrou no arquivo histórico do Muhnac uma carta de Francisco Newton, zoólogo e investigador português, responsável pela exploração das colónias portuguesas do Golfo da Guiné na segunda metade do século XIX, a mando do então director da secção zoológica do Museu Nacional de Lisboa (hoje Muhnac), José Vicente Barbosa du Bocage. “Por este paquete mando seis caixas, contendo aves, répteis, insectos e várias outras coisas. Vai um exemplar de um rato insectívoro que me parece novo, duas rãs, duas aves e dois morcegos”, lê-se na carta datada de 12 de Agosto de 1887.

Apesar da sugestão inicial de Francisco Newton, esta espécie foi primeiro confundida com a espécie existente na ilha de São Tomé (Crocidura thomensis), também colectada por Francisco Newton e descrita por José Vicente Barbosa du Bocage. Já no início do século XX, numa altura em que as revoluções da Primeira República tomaram grandes proporções, o Museu Nacional de Lisboa foi alvo de uma granada, que destruiu uma das alas de zoologia. Perdeu-se então, entre outros, o único exemplar do musaranho conservado até então – aquele que tinha sido capturado por Francisco Newton.

Só em 1964, durante uma expedição organizada pelo MNHN de Paris ao Golfo da Guiné, é que se conseguiram apanhar exemplares em São Tomé e no Príncipe. Com base em diferenças morfológicas, a espécie do Príncipe foi então classificada comoCrocidura poensis, a mesma de um outro musaranho existente na ilha do Bioco e que é uma das espécies mais comuns destes mamíferos semelhantes a um rato no Golfo da Guiné. E assim ficou classificado o musaranho da ilha do Príncipe até ao início do século XXI.

Nos últimos dez anos, expedições de equipas da Academia de Ciências da Califórnia, nos Estados Unidos, permitiram apanhar exemplares juvenis, levando à conclusão, através de análises de ADN, de que o musaranho poderia, na realidade, ser uma espécie nova para a ciência.

No caso de Luís Ceríaco, ele deslocou-se à ilha em Fevereiro de 2013, a convite do governador-geral autónomo do Príncipe, de início com um objectivo muito diferente: “Tínhamos a ideia de montar lá um pequeno museu, pelo que fui fazer uma apresentação e falar do que é um museu.” Era um projecto maior do que o museu de história natural Lisboa, numa ilha com pouco mais de 6000 habitantes, e que acabou por ser inviável. “Ficou tudo em standby, o museu não deu em nada e eu comecei logo as visitas ao campo.”

Feita a apresentação do projecto do museu, Luís Ceríaco aproveitou assim o tempo livre que ainda tinha no Príncipe e foi várias vezes ao campo. Afinal, tinha-se cruzado com a referência a um mamífero insectívoro que parecia novo a Francisco Newton. Será que existia mesmo?

Fingui, ou pequeno rato em crioulo

Acompanhado de imagens de musaranhos, Luís Ceríaco foi perguntando à população local por um “ratinho” semelhante ao que ia mostrando em fotografias e ilustrações. “Não podia dizer que era um musaranho insectívoro, porque as pessoas não sabem o que é um insectívoro. Tem de se ir ao encontro do que as pessoas conhecem.”

As respostas foram muito positivas: “Sim, há muitos desses animais por aqui”, diziam-lhe as pessoas. “E como se chama?”, perguntava-lhes o investigador. “É o fingui”, responderam-lhe.

Fingui, termo em crioulo para rato pequeno, é o nome pelo qual as populações locais conhecem o animal, e foi a primeira pista que Luís Ceríaco e a equipa conseguiram obter no campo sobre esta espécie. Um mês depois dessa primeira visita, Luís Ceríaco voltou novamente à ilha do Príncipe com o intuito específico de localizar e estudar a espécie. Numa semana, acabou por capturar os quatro exemplares já mencionados do pequeno mamífero.

Feitas as análises moleculares e morfológicas, tanto externas e internas, e pela comparação com dezenas de exemplares de espécies próximas guardados no MNHN de Paris, a equipa acabou por identificar e descrever esta nova espécie, num artigo publicado no último número da revista científica Mammalia, de Março.

A descrição de um novo musaranho é um acontecimento cada vez mais raro e vem alertar para a urgência de estudos sistemáticos que possam conduzir à identificação de espécies novas para a ciência. “Há menos fundos, mas cada vez se faz mais, porque estamos numa crise de biodiversidade tremenda e arriscamo-nos a que as espécies se extingam antes sequer que as conhecermos”, diz Luís Ceríaco.

Como fingui é o nome local deste musaranho, os cientistas decidiram escolher Crocidura fingui para o seu nome científico, sendo o segundo nome (a designação específica) igual ao usado pelas pessoas. “Decidimos adoptar um nome científico próximo daquele que é conhecido e utilizado pela população do Príncipe”, refere Luís Ceríaco.

Este musaranho de pêlo castanho-escuro é descrito como tendo médio porte. O comprimento da cabeça e do corpo é entre sete e dez centímetros, aproximadamente. A cauda é fina e acastanhada, as orelhas, cinzentas e nuas, são proeminentes. E o focinho, de ponta bifurcada e rosa-amarelado, tem vários pêlos longos.

“Externamente, o Crocidura thomensis é significativamente maior e apresenta uma cauda mais longa e mais robusta do que a espécie do Príncipe”, lê-se no artigo na revista Mammalia. “Para mais, existem diferenças no que respeita à pigmentação das patas e dos dedos (rosa no Crocidura thomensis e castanho escuro no da ilha do Príncipe), e na coloração do pêlo (cinzento versuscastanho-escuro)”. Em relação ao Crocidura poensis, a outra espécie no Golfo da Guiné, as diferenças mais significativas encontram-se a nível molecular.

Quanto à distribuição do musaranho-fingui, é restrita à ilha do Príncipe. Mais: apenas é conhecido na parte Norte da ilha. É uma espécie que se encontra “com muita frequência perto de construções humanas, mas também em áreas semi-abertas e em cursos de água”, escrevem os investigadores no artigo. De acordo com a população local, “é muito comum em antigas plantações de bananas, dentro de casas e perto de afloramentos rochosos”.

Nesta ilha, a natureza é uma das suas maiores relíquias, principalmente as espécies endémicas (únicas da ilha), que em proporção chegam a ser tantas ou mais do que as existentes em Madagáscar, conhecida pela sua biodiversidade. Por isso mesmo, este estudo vem também dar mais visibilidade à ilha do Príncipe.

Luís Ceríaco sublinha ainda a importância dos museus e das colecções para estes estudos, pois as potencialidades que apresentam actualmente são muito maiores do que aquelas que os colectores de outros tempos sonharam sequer que poderiam ter. Sem as colecções, quer de exemplares quer de manuscritos e arquivos armazenados nos museus, não teria sido possível perceber que esta espécie ainda estava por identificar nem tão-pouco compará-la às que já tinham sido descritas.

Esta descoberta abre portas a estudos não só da ecologia e história natural do musaranho-fingui, como também de outras espécies endémicas das ilhas de São Tomé e Príncipe, de padrões biogeográficos ou de fenómenos de aparecimento de novas espécies e colonização das ilhas, tema particularmente importante em estudos de evolução e origem das espécies.

“Agora o passo seguinte será o estudo ecológico e a história natural desta espécie, ou seja, do que é que se alimenta [exactamente], qual o seu estilo de vida, qual o seu ciclo reprodutor, onde é que ocorre e em que números.”

fonte: Público