quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Estudo mostra uma tripla hélice de ADN que «desliga» genes


Ao que parece, a tripla hélice veio para ficar. Já deve estar familiarizado com a dupla hélice, mesmo que não conheça o nome - trata-se da típica escadinha torcida formada pelo ADN. Acontece que a versão tripla dessa estrutura provavelmente é importante para controlar a activação dos genes do nosso organismo, segundo um novo estudo.

Os dados, publicados na revista Nature Communications, são, em parte, um prémio para a persistência do investigador brasileiro Eduardo Gorab, do Instituto de Biociências da USP, que é co-autor do estudo.

Já se sabia há décadas que a tripla hélice podia formar-se em laboratório, mas Gorab foi um dos cientistas que apostaram na possibilidade de que o fenómeno ocorresse espontaneamente "in vivo", ou seja, em organismos vivos.

O biólogo da USP também defendia que a tripla hélice deveria estar associada à regulação do funcionamento dos genes, coisa que a nova análise agora corroborou.

As descobertas relatadas no artigo da Nature Communications, coordenadas por Chandrasekhar Kanduri, da Universidade de Gotemburgo (Suécia), estão intimamente ligadas aos níveis cada vez mais subtis de complexidade que os cientistas andam a observar no material genético.

Nas aulas de biologia, ainda se aprende o chamado «dogma central da biologia molecular», segundo o qual o ADN, que contém os genes, serve de "receita" para a produção de RNA (uma molécula parecida, mas de fita simples, e não dupla).

O RNA, por sua vez, funciona como molde para a produção de proteínas, as quais desempenham todas as funções nas células dos seres vivos.

Nada disso é mentira, a rigor, mas a questão é que o processo de funcionamento das células parece envolver inúmeros outros processos que não seguem o figurino do dogma central. O RNA, por exemplo, não actua apenas como um “moço de recados” do ADN, mas às vezes volta-se contra o seu suposto mestre e pode até "calá-lo" - para ser mais preciso, evita que o ADN seja "lido" e sirva de receita para proteínas.

Entender tais detalhes é essencial para explicar, por exemplo, como um único óvulo fecundado dá origem a todos os tipos de células do corpo adulto, das que fazem o coração bater às que transmitem mensagens dos olhos para o cérebro, ou para elucidar como certas células enganam o controlo de qualidade do organismo e se multiplicam de forma descontrolada, dando origem aos vários tipos de cancro. Todos esses fenómenos, afinal, estão ligados aos padrões de "liga" e "desliga" do ADN.

Para chegar à possível função da tripla hélice, Gorab e os seus colegas seguiram a pista deixada pelos chamados lncRNAs (sigla inglesa de "RNAs longos não codificadores", ou seja, que não participam da produção de proteínas). Já se sabia que esse tipo de RNA é capaz de "silenciar" ou "desligar" certos genes, encaixando-se em regiões específicas do DNA.

Ao analisar como um tipo de lncRNA fazia isso numa linhagem de laboratório de células humanas, derivadas de um tumor de mama, os cientistas verificaram que a molécula costumava ligar-se a regiões do material genético com elevada presença das "letras" químicas G (guanina) e A (adenina).

A interação entre o RNA e o ADN levava à formação de uma tripla hélice híbrida (incluindo os dois tipos de molécula). E isso, por sua vez, recrutava para o local uma proteína especializada em "desligar" o ADN.

Se as observações forem confirmadas, a formação da tripla hélice seria um processo importante para o "silenciamento" de muitos genes.

Em tese, seria possível até utilizar o fenómeno para desligar genes associados a determinadas doenças, embora essa possibilidade ainda esteja distante.


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