sexta-feira, 17 de julho de 2015

Há dez anos que acorda a pensar que é 14 de março de 2005


Fotografia © Photonquantique | Via Flickr

Há uma década que um antigo soldado não cria novas recordações. O caso espanta os médicos uma vez que não parece haver nenhum problema no cérebro do doente.

Um antigo soldado britânico está "preso" no dia 14 de março de 2005 há mais de dez anos: todos os dias, o doente conhecido como "WO" acorda a pensar que é essa a data, que está na Alemanha e que tem uma consulta no dentista. O caso, descrito na revista científica Neurocase, está a fascinar os médicos e investigadores envolvidos, que não conseguem perceber o que é que fez com que este antigo soldado tivesse perdido a capacidade de gerar novas recordações.

"WO", como é chamado pelos seus médicos no artigo científico sobre o caso, era soldado nas forças armadas britânicas e em março de 2005 estava trabalhar numa base militar na Alemanha. Desde o dia 14 desse mês que o antigo soldado não consegue guardar novas recordações durante mais do que 90 minutos, e o caso é particularmente surpreendente porque os médicos não encontram nenhum problema físico no cérebro do homem.

No dia em que perdeu a memória, o soldado teve uma consulta no dentista em que lhe foi aplicada anestesia local, mas não se sabe se a operação teve um impacto direto naquilo que lhe aconteceu. O seu diagnóstico, descrito pelo Washington Post como "incerto", é de amnésia anterógrada, o que significa que embora se lembre de tudo até um determinado momento, é incapaz de gerar novas memórias.

WO é obrigado a manter um diário eletrónico que o vai recordando do que tem de fazer e do que se passou nos 10 anos que já decorreram desde o último momento de que se lembra. Cada manhã, WO consulta uma lista no seu computador onde é recordado do que decorreu nos últimos dez anos, e continua a surpreender-se com algumas das coisas que lá encontra, embora já se tenham passado há anos.

Não se sabe o que causa a amnésia anterógrada de WO. Não parece existir nenhum dano no seu cérebro que explique o que se passa, nem nenhum trauma psicológico que possa justificar esta incapacidade de gerar novas memórias. Uma explicação proposta por alguns cientistas é a de que o cérebro de WO deixou de conseguir consolidar a informação que vai sendo recebida - embora o seu cérebro consiga "apontar" nova informação, não consegue depois "arquivá-la", um processo que, numa pessoa normal, demora cerca de 90 minutos.

Na década que passou desde que perdeu a memória, WO guardou apenas uma nova recordação: a morte do seu pai. Embora não saiba em que circunstâncias aconteceu, parece que a ligação que o soldado tinha com o pai terá tido um papel no facto de continuar a lembrar-se do que aconteceu, mesmo após a passagem dos 90 minutos iniciais que são suficientes para se esquecer de tudo o resto.