quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Putin quer mudança radical no controlo da qualidade da frota espacial


O sector espacial russo está em crise

A queda nesta quarta-feira de uma nave russa Progresso que levava mercadorias para a Estação Espacial Internacional (ISS) levou o primeiro-ministro russo Vladmir Putin a exigir uma mudança radical no controlo de qualidade. Os críticos dizem que o incidente expôs da pior forma a displicência pós-soviética com que o país está a tratar a indústria do espaço.

“Putin deu instruções à Roskosmos [a agência espacial russa] para mudar radicalmente o controlo de qualidade do sistema de inspecção da produção de máquinas espaciais”, disse à AFP Dmitri Peskov, porta-voz da Agência Espacial Russa.

A reacção ocorre na sequência da queda da nave de carga Progresso M12-M, que falhou a entrada em órbita e acabou por se despenhar na Sibéria, cinco minutos e 25 segundos depois de ter sido lançada a partir do cosmódromo de Baikonour, no Cazaquistão. A nave levava cerca de três toneladas de carga para a ISS e caiu devido a uma falha no foguetão russo Soiuz que a transportava.

O Soiuz é o foguetão genérico russo que também é responsável pelo lançamento das cápsulas tripuladas com a mesma designação que asseguram o transporte de astronautas para a ISS. Agora, após os vaivéns norte-americanos terem deixado definitivamente de fazer o mesmo serviço, as cápsulas Soiuz são o único meio de transportar astronautas para a ISS. 

A primeiro e segundo andares do Soiuz-FG, utilizado para pôr em órbita as naves tripuladas, são diferentes dos do Soiuz-U, que leva a nave Progresso. Mas o terceiro é igual em ambas. Os engenheiros espaciais querem perceber o que é que falhou. Para isso, vão dirigir-se ao local onde se deu ontem a queda para recolher os destroços das naves.

Sinal de alarme

Depois do fim dos vaivéns norte-americanos, o calendário das viagens até à Estação Espacial Internacional para a substituição das tripulações está completamente dependente das Soiuz até, na melhor nas hipóteses, 2015. Este é o primeiro acidente que esta linha de naves tem desde a sua inauguração, em 1978. Mas desde Dezembro, cinco satélites russos falharam a entrada em órbita, o que mostra um problema sistémico na indústria espacial russa.

“A série de acidentes com os satélites russos não é uma questão de azar, é uma crise no sector”, disse à AFP Igor Lisov, especialista da revista russa "Novosti Kosmonavtiki". Apesar de dizerem que o novo desastre não põe em causa voos futuros até à ISS, especialistas ouvidos pela AFP apontam para um problema generalizado no sector, que vai desde ordenados baixos até a um laxismo nas verificações técnicas.

“É 100 por cento certo que foi um erro de produção ou de um profissional incompetente”, disse Lisov. “Isto é um sinal de alarme. Mostra que a monitorização falhou. Antes, não teriam deixado um problema técnico passar.

”O “antes” refere-se à era soviética, quando a indústria espacial tinha acesso a muito mais verbas. Durante a década de 1990, a Agência Espacial Russa viu técnicos com experiência de 30 e 40 anos aposentarem-se e serem substituídos por uma nova geração sem as mesmas competências.

“Claro que a qualidade está a piorar, temos que admiti-lo”, disse à rádio Eco de Moscovo Valeri Riumin, responsável pelo sector de design da empresa russa Energia – que produz naves e componentes para estações espaciais. “As verificações tornaram-se bem menos cuidadosas do que nos velhos tempos soviéticos.”

“Isto vai continuar enquanto as pessoas considerarem que um engenheiro no sector espacial pode ganhar metade do que um vendedor de telemóveis de um quiosque”, disse Lisov. “Isto é uma questão de prioridades e de valores da sociedade. Quando o consumismo se torna a primeira prioridade, acontece uma crise.”

Calendário alterado

Entretanto, as próximas viagens da Soiuz estão tremidas. A primeira iria acontecer já para a semana, para pôr em órbita um satélite de navegação russo, Glonass, que faz parte de uma rede que quer competir com o sistema de GPS norte-americano e com o sistema Galileu da Agência Espacial Europeia (ESA). O lançamento do satélite, feito por um foguetão russo Soiuz-2, deverá acontecer só a meio de Setembro.

A 22 de Setembro e a 28 de Outubro estavam ainda previstos dois lançamentos com foguetões Soiuz. O primeiro iria levar um voo tripulado para a ISS e o segundo seria uma nave de carga. A Roskosmos retirou as duas datas do seu calendário no site da Internet.O lançamento que aparentemente continua de pé e envolve outro foguetão Soiuz pertence ao projecto Galileu da ESA. Um dos satélites vai para o espaço dia 20 de Outubro, a partir da base espacial na Guiana Francesa. Jean-Yves Le Gall, CEO da empresa espacial Arianespace, responsável pelo lançamento destes satélites, sublinhou que o modelo do foguetão é diferente do que caiu nesta quarta-feira.


fonte: Público

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