sábado, 21 de março de 2015

Cogumelo do Brasil brilha à noite e os insectos vão até lá


O cogumelo Neonothopanus gardneri, conhecido por flor-de-coco no Brasil, brilha apenas à noite
DR


O mesmo cogumelo de dia DR

Até agora, não havia uma hipótese forte para a bioluminescência em 91 espécies de fungos. Uma equipa de cientistas acaba de mostrar que a luz nocturna num cogumelo brasileiro pode ajudar na sua reprodução.

À noite, um verde fluorescente tinge o solo da mata dos cocais nos estados de Piauí, Maranhão, Tocantins e Goiás, no Centro e Norte do Brasil. O flor-de-coco, um cogumelo que cresce na base de palmeiras, brilha mostrando a sua bioluminescência. Os biólogos conhecem este fenómeno em organismos como os pirilampos ou em certas medusas. Há ainda 91 espécies de fungos, incluindo o flor-de-coco, que também produzem luz fluorescente. Doze deles no Brasil. Mas a sua função nos fungos tem-se mantido desconhecida.

Agora, uma equipa de cientistas do Brasil e dos Estados Unidos mostrou que este fenómeno pode servir para atrair os insectos até ao flor-de-coco. O objectivo, defende a equipa, é os insectos transportarem esporos deste cogumelo para germinarem noutros lugares, conclui um artigo publicado esta quinta-feira na revista científica Current Biology.

A mata dos cocais é um tipo de floresta com espécies de coqueiros e palmeiras, situada entre a floresta amazónica e a caatinga, um ecossistema mais seco do Nordeste brasileiro. O cogumelo flor-de-coco, cujo nome em latim é Neonothopanus gardneri, surge nos cocais na base das palmeiras da espécie Orbignya phalerata.

Segundo o artigo, sabe-se que é à noite que o flor-de-coco brilha e a intensidade do brilho é diferente consoante a idade e o tamanho do cogumelo (que tem alguns centímetros) e até a meteorologia: “As condições óptimas são as noites depois de um dia quente, com uma chuva intensa à tarde e uma ligeira brisa ao final da tarde ou à noite.”

Mas a razão do brilho nocturno desta ou de outras espécies de fungos era desconhecida. Na antiguidade, a bioluminescência dos fungos despertou a curiosidade de Aristóteles, que os incluiu como um exemplo de coisas que brilham à noite, no seu tratadoDe Anima, de 350 a.C.: “Nem tudo o que é visível depende da luz para se ver. (…) Alguns objectos, que à luz do dia são invisíveis, na escuridão estimulam o sentido [a visão]; ou seja, são coisas que parecem incandescentes ou brilhantes. Esta classe de objectos não tem um nome comum simples, mas encontramos exemplos em fungos e em carne, cabeça, escamas e olhos de peixes.”

A explicação da origem desta luz natural dos fungos é importante. “Os fungos basidiomicetos [filo onde se inclui o flor-de-coco e muitos outros cogumelos] são responsáveis pela reciclagem de todo o material [vegetal] lenho-celulósico para outros níveis da cadeia alimentar, têm relações de simbiose com plantas e têm importância na agricultura. Saber como crescem e dispersam os esporos é muito importante”, explica ao PÚBLICO Cassius Stevani, um dos autores do artigo, professor na Universidade de São Paulo. “O facto de este fungo ser naturalmente bioluminescente pode ajudar a compreender melhor este filo de fungos.”

Uma das hipóteses sobre o fenómeno da bioluminescência nos fungos sustentava que substâncias sem nenhuma função, que eram um subproduto do metabolismo, é que causavam a bioluminescência. Portanto, o fenómeno não teria nenhuma função para o cogumelo, apesar de ser dispendioso a nível energético.

Uma experiência na floresta 

Mas a equipa rapidamente pôs de parte esta hipótese, quando analisou, no laboratório, a fluorescência do flor-de-coco ao longo de ciclos de dia e de noite, e viu que a luz surgia só à noite e desaparecia de dia, independentemente da temperatura ambiente. Depois, os investigadores mediram ao longo daqueles ciclos a concentração dos ingredientes necessários para a fluorescência, incluindo a molécula luciferina que emite esta luz. Deste modo, verificaram que a concentração dos ingredientes da fluorescência também aumentava e diminuía tal como a bioluminescência, o que indicava que se estava perante um fenómeno regulado pelo ritmo circadiano.

Segundo os autores, esta regulação indicava que a bioluminescência teria que ter algum papel na vida do fungo – que poderia ser uma função de defesa ou de ataque. No caso deste fungo, os cientistas foram verificar se a bioluminescência estava ligada à dispersão dos esporos microscópicos pelos insectos. “Todos os fungos precisam de ajuda para ir de um lado para outro para colonizar novos substratos”, explica o artigo. O vento é um factor importante para esse transporte, mas nas florestas os animais podem tornar-se, sem saber, os responsáveis por este processo, e conhecem-se vários insectos que transportam esporos.

Por isso, os investigadores testaram a hipótese de atracção de insectos com uma experiência numa mata dos cocais no Norte de Piauí. Durante cinco noites, deixaram instalados ao ar livre dez cogumelos artificiais: estruturas de acrílico com lâmpadas LED verdes no interior, revestidas exteriormente com uma cola sem cheiro, que não deixaria fugir os insectos que lá tocassem. Cinco destes cogumelos artificiais foram ligados à noite, dando uma luz fluorescente verde semelhante à bioluminescência do cogumelo flor-de-coco. Outros cinco não tinham a luz ligada.

Os cientistas verificaram então que insectos como os escaravelhos, as moscas, as vespas e as formigas visitavam mais os cogumelos artificiais ligados do que os desligados. Um resultado que apoiou a hipótese da equipa para o papel de atracção de insectos através da bioluminescência nos cogumelos.

“Em florestas densas e sem muito fluxo de vento, a dispersão de esporos por insectos é uma possibilidade adicional [para estes fungos]. Isso não quer dizer que o vento não possa transportar os esporos também”, defende Cassius Stevani, acrescentando que a sua equipa continua a estudar a interacção deste cogumelo com insectos usando agora câmaras de infravermelhos. Além disso, a equipa do investigador está a tentar isolar os genes do cogumelo envolvidos no fenómeno da bioluminescência para “estudar a regulação da luz e a sua relação com genes de relógios biológicos”.

fonte: Público