sábado, 21 de março de 2015

Desvendado o mistério dos estranhos mamíferos sul-americanos de Darwin


Representação artística de dois macrauquénias PETER SCHOUTEN


Representação artística de um toxodonte PETER SCHOUTEN

Para Charles Darwin, o “pai” da teoria da evolução das espécies, tratava-se dos animais mais bizarros alguma vez descobertos.

Um deles parecia um híbrido de hipopótamo, rinoceronte e roedor, o outro era uma espécie de camelo sem bossas e uma tromba de elefante. E desde que Charles Darwin, naturalista britânico do século XIX, recolhera pela primeira vez os seus fósseis, há cerca de 180 anos, que os cientistas se perguntavam onde é que estes estranhos animais sul-americanos, que se extinguiram há apenas 10.000 anos, “encaixavam” na árvore genealógica da vida. O mistério acaba de ser resolvido.

Até aqui, alguns especialistas pensavam que estes mamíferos herbívoros, que foram os últimos representantes do bem-sucedido grupo dos chamados ungulados nativos da América do Sul, estavam relacionados com mamíferos de origem africana tais como os elefantes e os papa-formigas, ou ainda com outros mamíferos sul-americanos tais como os armadilhos e as preguiças.

Mas agora, Ian Barnes, do Museu de História Natural de Londres, e colegas anunciaram que, graças a uma análise sofisticada do colagénio dos ossos extraído de fósseis de ambos esses mamíferos – chamados toxodontes e macrauquénias –, conseguiram demonstrar que eles eram parentes próximos dos grupos de animais que também deram origem aos cavalos, tapires e rinocerontes. “Resolvemos um dos últimos grandes enigmas da evolução dos mamíferos: o das origens dos ungulados nativos da América do Sul”, diz Barnes. Os resultados foram publicadosonline, na quarta-feira, pela revista Nature.

Os toxodontes, com cerca de 2,75 metros de comprimento, tinham um corpo semelhante ao de um rinoceronte, uma cabeça parecida com a de um hipopótamo e molares em permanente crescimento tal como os roedores. Os macrauquénias, igualmente compridos mas de ossatura mais leve, tinham pernas e um pescoço compridos e possuíam aparentemente uma pequena tromba.

“Algumas das primeiras reflexões de Darwin sobre a evolução por selecção natural ficaram em risco quando ele contemplou os restos fósseis do taxodonte e do macrauquénia”, diz o co-autor Ross MacPhee, especialista de paleontologia dos mamíferos do Museu Americano de História Natural em Nova Iorque. É que estes animais, apesar de terem desaparecido há muito pouco tempo, eram uma espécie de mosaico confuso: “Apresentavam características muito semelhantes às de um sem-fim de outros grupos de animais, sem relação de parentesco entre si e que viviam por todo o lado”, salienta McPhee.

Os cientistas começaram por tentar extrair ADN dos fósseis, mas não conseguiram. Porém, foi possível obter colagénio, a principal proteína da estrutura de diversos tipos de tecidos animais, incluindo os ossos e a pele. Puderam então sequenciar essa proteína e compará-la com o colagénio de um amplo leque de mamíferos actuais e de alguns mamíferos extintos, de forma a posicionar as duas estranhas criaturas na árvore dos mamíferos.

Segundo explica em comunicado o museu norte-americano, é provável que os antepassados dos ungulados nativos da América do Sul tenham lá chegado, vindas da América do Norte, há mais de 60 milhões de anos. Ou seja, pouco depois da aniquilação dos dinossauros por uma catástrofe natural, evento que permitiu que os mamíferos se tornassem os principais animais terrestres do nosso planeta.

fonte: Público