segunda-feira, 23 de março de 2015

Bilderberg. Uma simples conferência ou um governo sombra?


Eles dizem que são só um grupo de pessoas influentes com vontade de conversar com outras pessoas influentes. Mas há quem garanta que os Bilderberg, que se reúnem uma vez por ano, querem na realidade dominar o mundo. E que já dominam a UE

O Interalpen-Hotel Tyrol já não tem vagas para as duas primeiras semanas de Junho. A luxuosa unidade hoteleira austríaca recebe este ano o encontro anual dos Bilderberg. Não é uma estreia: em 1988, a estância de montanha acolheu, sob o habitual secretismo e as apertadas regras de segurança, algumas das mais influentes personalidades mundiais.

A conferência Bilderberg 2015 está marcada para 11 a 14 de Junho e a lista de convidados ainda não é conhecida. No entanto, não é difícil prever que entre os cerca de 120 participantes estarão alguns dos mais importantes nomes de americanos e europeus ligados ao mundo dos negócios, da polícia e da ciência. Isolados do mundo e resguardados de olhares indiscretos. As autoridades austríacas já fizeram saber que o espaço aéreo estará interdito num perímetro de 30 milhas.

O local é perfeito: opulento, isolado e próximo do aeroporto de Innsbruck. E a escolha da data não será um acaso. Normalmente os encontros acontecem na última semana de Maio ou na primeira de Junho. Este ano a conferência acontece mais tarde que o habitual e há quem atribua o atraso à reunião do G7 – agendada para os dias 7 e 8 de Junho na Alemanha, em Schloss Emau, a apenas três quilómetros da fronteira com a Áustria. Segundo a polícia austríaca, no terreno estará uma operação de segurança comum aos dois eventos. 

Afinal por que razão cerca de uma centena de personalidades se reúnem uma vez por ano desde a década de 1950? Os Bilderberg garantem que a conferência não tem qualquer propósito secreto ou conspirativo. Trata--se, dizem, de um “fórum informal” que promove o contacto e o debate entre pessoas influentes, estimulando o diálogo entre a América do Norte e a Europa (só são convidados participantes dos dois continentes). Asseguram também que os encontros não são secretos, uma vez que a localização e a lista de convidados, bem como os tópicos em discussão, são públicos. Mas não é tanto assim: apesar das constantes investidas da imprensa ao longo dos anos, pouco se sabe do tipo de conversas que acontecem nos três dias de reunião. Consta, no entanto, que os convidados têm de se submeter à “Regra de Chatham House” – uma espécie de código de conduta que estabelece, entre outras obrigações, o dever de sigilo. Os convidados podem usar as informações que recolherem da forma que bem entenderem, mas estão proibidos de revelar quem disse o quê nas palestras. Já as conversas com a comunicação social são desaconselhadas.

Talvez por isso, Francisco Pinto Balsemão, cujas ligações a Bilderberg explicamos nas páginas seguintes, se tenha recusado a responder a um conjunto de questões – simples – sobre o clube. O patrão da SIC é o único membro permanente português do Bilderberg e faz parte do Steering Comité – um restrito órgão encarregado de escolher os temas a debater anualmente e as personalidades a convidar.

Desde o final da década de 1980, Balsemão tem sido responsável por levar às reuniões personalidades portuguesas – quase todas figuras com peso no PS e no PSD ou influência no mundo dos negócios. Nas últimas duas décadas, como concluímos nas páginas 8 e 9, e à excepção de Passos Coelho, todos os primeiros-ministros foram às reuniões: António Guterres, Durão Barroso, Santana Lopes e José Sócrates. Também por lá passaram responsáveis de bancos como Ricardo Salgado, do falecido BES, ou Artur Santos Silva, do BPI.

Coube a Balsemão organizar o único encontro que aconteceu em Portugal, no Hotel da Penha Longa, em Sintra. Nada de concreto se soube sobre a reunião, apesar dos muitos jornalistas que acorreram à vila portuguesa. Além das fortes medidas de segurança, pouco mais se viu. Na página 7, recordamos como o hotel foi rodeado de barreiras de homens armados com metralhadoras para garantir a privacidade dos convidados. 

Na altura Balsemão não se livrou de uma incómoda notícia no semanário “O Independente”, que revelou como a sua empresa recebera 40 mil contos (200 mil euros) do governo para a organização do evento.

O patrão da SIC conhece bem os critérios a que deve obedecer o recrutamento. A avaliar pelas listas de participantes, é fácil perceber que se trata de figuras altamente influentes – Obama, Bill Clinton, Bill Gates e vários membros da realeza europeia já foram convidados. Mas há também casos curiosos de participantes sem grande influência e que, a seguir à conferência, conseguiram altos cargos – como Margaret Thatcher, convidada quando ainda era desconhecida. Os Bilderberg garantem que se trata de meras coincidências, apesar de admitirem que são propostas pessoas que se acredita que possam vir a dar cartas nas suas áreas de actividade.

Portugal não escapa a estas coincidências. Em Junho de 2004, Santana Lopes e José Sócrates foram a uma reunião. Um mês depois, Santana substituía Durão Barroso – que também foi a um encontro antes de se tornar primeiro-ministro – e, em Março de 2005, José Sócrates era eleito. 

Coincidências ou não, sempre que o clube se reúne acontecem coisas. Sabe-se que, em 2006, os Bilderberg debateram a chegada de uma crise global, que levaria milhares de pessoas a perder as suas casas. Dois anos depois a profecia tornava-se realidade. 

Cristina Martín Jiménez, jornalista espanhola que investiga o clube há mais de dez anos, conta na página 4 como a actual crise foi forjada por esta “elite que actua na sombra” e que, em segredo, comanda a União Europeia. É mais uma das mil e uma teorias da conspiração em torno de Bilderberg. Daniel Estulin, jornalista que acompanha o assunto há quase duas décadas, não se cansa de pregar que os Bilderberg têm um plano para dominar o mundo, criando um governo global e utilizando instituições como a ONU, o FMI e até o Vaticano.

Os Bilderberg negam e asseguram que são apenas pessoas influentes que pretendem debater os grandes temas mundiais com pessoas igualmente influentes e num ambiente descontraído e discreto, sem a pressão da imprensa e do politicamente correcto. Devemos acreditar?

fonte: i online