sábado, 9 de maio de 2015

A Senhora de Vermelho já comia cogumelos há quase 19 mil anos


A mandíbula da mulher encontrada na gruta El Mirón, na Cantábria, no Norte de Espanha LAWRENCE STRAUS


A entrada da gruta na Cantábria LAWRENCE STRAUS


Restos microscópicos de plantas detectados no tártaro dos dentes estudados LAWRENCE STRAUS


Lawrence Straus (à direita) e Manuel González Morales (à esquerda) escavaram a gruta desde 1996 LAWRENCE STRAUS

Os glaciares estavam a recuar na Europa quando a cultura magdaleniana do Paleolítico Superior tomou conta do continente. Entre 2010 e 2013 foi desenterrado, numa gruta da Cantábria, em Espanha, o esqueleto de uma mulher que nos ajuda a compreender aqueles tempos.

Há 18.700 anos a última era glaciar ainda não tinha terminado, mas os gelos que tinham tomado conta de boa parte da Europa já estavam a retroceder e uma nova cultura humana começava a prosperar. Apesar de não ser assim há tanto tempo, aquele era um mundo completamente diferente. Não havia agricultura e muito menos escrita ou cidades, mas o pensamento simbólico já tinha nascido e a arte ficou marcada para sempre nas gravuras deixadas em grutas. As comunidades humanas subsistiam graças ao que a natureza lhes oferecia. Os vestígios da caça e os instrumentos usados para esta actividade que chegaram até hoje são bastantes e as plantas também faziam parte da dieta do Paleolítico Superior.

Agora, descobriram-se vestígios de cogumelos nos dentes de um esqueleto de uma mulher que viveu naquela altura, numa gruta no Norte de Espanha, mais precisamente na Cantábria. Esta é o indício mais antigo de sempre do uso de cogumelos na alimentação humana, conclui um artigo publicado recentemente na revista Journal of Archaeological Science, e é um dos aspectos novos que surgiu com a descoberta da Senhora de Vermelho, o nome dado ao esqueleto, devido ao pigmento ocre usado nos rituais fúnebres e que foi encontrado nos ossos.

O esqueleto foi descoberto em 2010 pela equipa de Lawrence Straus, da Universidade do Novo México, nos Estados Unidos, e Manuel González Morales, da Universidade da Cantábria, que desde 1996 têm estado a escavar a gruta de El Mirón. A gruta tem vestígios arqueológicos que atravessam várias dezenas de milénios, desde há 46.000 anos até à Idade Média. “[A gruta] tem uma das mais longas sequências do período magdaleniano na Península Ibérica”, diz ao PÚBLICO Lawrence Straus.

A cultura magdaleniana, associada a determinados vestígios de utensílios e arte, surgiu há cerca de 20.000 anos e durou até há cerca de 12.000 anos, quando se pensa que uma diminuição do número de animais na Europa alterou o equilíbrio ecológico das populações humanas. Mas nunca tinha sido encontrado um esqueleto tão completo do magdaleniano na Península Ibérica. A sua escavação continuou até 2013 e o seu estudo resultou agora em 13 artigos assinados por vários cientistas, reunidos numa edição especial da revista Journal of Archaeological Science.

“O nome que lhe dei foi em memória da famosa Senhora de Vermelho de Paviland [uma gruta em Gales], o primeiro enterro do Paleolítico descoberto na Europa, no inicio do século XIX”, explica Lawrence Straus, acrescentando que, inicialmente, o esqueleto de Gales foi atribuído a uma mulher da Roma Antiga, mas mais tarde compreendeu-se que era, na verdade, o de um homem que viveu há 33.000 anos.

Os ossos da nova Senhora de Vermelho permitiram calcular que ela morreu com uma idade entre os 35 e 40 anos, e que tinha uma estrutura robusta: media 1,59 metros e pesava cerca de 69 quilos. Não tinha cáries. Sobre a sua vida sabe-se bastante menos, mas os cientistas já têm alguma informação sobre o dia-a-dia da comunidade que vivia naquela altura em El Mirón, graças a vários vestígios descobertos lá.

“As pessoas faziam instrumentos e armas com material lítico daquele e de outros locais e ainda com chifres e ossos. Caçavam a cabra-montês e algumas camurças nas encostas altas à volta da gruta, e o veado-vermelho no grande vale e nas encostas mais baixas junto ao rio Asón e aos seus afluentes, onde também pescavam salmão. Construíam fogueiras, poços e possivelmente paredes. Esquartejavam as carcaças e processavam os seus produtos, e costuravam roupas e sapatos. Comiam, cantavam, dançavam, contavam histórias, reproduziam-se, riam-se, choravam, dormiam… e morriam. Mas só raramente eram enterradas nas grutas onde tinham vivido”, descreve-se num dos 13 artigos.

Quando morreu, a Senhora de Vermelho foi sepultada numa depressão natural entre um grande bloco, que caiu de uma das paredes da gruta pouco tempo antes da sua morte, e uma das paredes da gruta. Os cientistas descobriram primeiro uma mandíbula e ao longo dos anos foram recolhendo cerca de 100 dos seus 206 ossos. Muitos dos ossos maiores faltavam: o crânio, os dois fémures, uma tíbia, os dois rádios e as duas ulnas e ambos os úmeros (os ossos do antebraço e do braço).

Mas pelo que ficou, os investigadores suspeitam que os ossos foram apanhados por um lobo ou por um cão algum tempo depois do enterro – uma tíbia tinha as marcas de uma mordidela. Depois, alguém voltou a enterrá-los.

Uma análise ao pigmento ocre revelou que tinha minerais de hematite com cristais. “Era tão rico que a zona da sepultura brilhava”, explicam os autores no mesmo artigo. “À medida que escavámos, sabíamos que estávamos na sepultura pela intensa cor vermelha e os cristais brilhantes.” A zona do bloco caído junto à sepultura também estava pintada de vermelho. E os cientistas descobriram que alguns dos ossos voltaram a ser pintados quando foram enterrados pela segunda vez.

O ocre é um dos elementos que levaram os investigadores a suspeitar de que estavam perante uma mulher especial para a sua comunidade. As pinturas de dois animais na gruta e vários riscos gravados no bloco junto à sepultura foram outras pistas.

“Na superfície do bloco, há gravuras que representam [provavelmente] a região púbica feminina em forma de triângulo e mãos. As gravuras foram cobertas por sedimentos após o enterro, por isso poderão constituir algum tipo de marca”, diz Lawrence Straus, explicando que a mulher é um enigma. “Não temos qualquer ideia por que é que ela era ‘especial’. Tudo o que podemos dizer é que há várias sepulturas magdalenianas em França e na Alemanha, mas esta é a primeira na Península Ibérica, apesar de se escavarem locais da cultura magdaleniana há cerca de 140 anos.”

Mas os dentes desta mulher-mistério ajudaram, pelo menos, a conhecer um pouco mais da alimentação daquelas comunidades. Uma equipa liderada por Robert Power, do Instituto Max Planck para a Antropologia Evolutiva, em Leipzig, na Alemanha, analisou o tártaro em três dentes da mandíbula da Senhora de Vermelho e em um dente isolado encontrado na gruta em estratos mais recentes.

Os cientistas dizem que no tártaro se encontram vestígios de alimentos. Usando técnicas de microscopia óptica e de microscopia electrónica de varrimento, a equipa descobriu vestígios de carne, de sementes e tubérculos de plantas nos dentes da Senhora de Vermelho, mas também esporos de fungos. Embora não consigam identificar as espécies a que pertencem os esporos, os cientistas sabem pelo menos que são de grupos de cogumelos com espécies comestíveis.

Há uma longa tradição no consumo de cogumelos. O famoso Ötzi – o homem que morreu nos Alpes, há cerca de 5300 anos, e foi encontrado mumificado em 1991, em Itália, perto da fronteira com a Áustria – carregava cogumelos. Mas tanto poderiam ser para comer como para uso medicinal.

Agora a descoberta de esporos de cogumelos no tártaro da Senhora de Vermelho é um forte indício de que os cogumelos faziam parte da roda de alimentos destes humanos. “É possível que esta descoberta seja a do uso mais antigo de cogumelos para consumo humano no Paleolítico”, lê-se no artigo de Robert Power.

Lawrence Straus explica-nos a importância de se saber mais sobre os hábitos alimentares desta comunidade: “Aprendemos como é que eles sobreviveram aos rigores da última era glacial na Europa: servindo-se da caça e da recolha de alimentos, à custa de viagens quotidianas planeadas, de tácticas e tecnologias, da partilha de informação e da cooperação com outros grupos. Tudo sem a agricultura.”

fonte: Público