sexta-feira, 8 de maio de 2015

Vida nos Limites


ENGOLIDOR-NEGRO (Chiasmodon niger) Como alimento é tão escasso a milhares de metros abaixo da superfície oceânica, o grande-engolidor ou engolidor-negro se adaptou para tirar o maior proveito de cada oportunidade para se alimentar. O estômago altamente elástico do peixe e suas mandíbulas extremamente articuladas permitem que ele devore presas que têm até 10 vezes o seu próprio peso

Exposição mostra oito aberrações da Natureza nos extremos da evolução normal

Para uma monstruosa flor parasítica sobrevivência significa fedor de carne podre.

Outras criaturas muito esquisitas recorrem a uma rica variedade de adaptações quase sobrenaturais que lhes permitem existir e sobreviver nas condições mais extremas encontradas na Terra.

Seja como for, pode-se dizer que todos os organismos na exposição Vida nos Limites(Life at the Limits) no Museu Americano de História Natural, em Nova York, têm superpoderes.

Organizadas por categorias como respiração, alimentação e reprodução, as criaturas incluídas na exposição, inaugurada em 4 de abril, representam os extremos do espectro evolutivo normal para características especiais.

A Scientific American conversou com Mark Siddall, corresponsável pela mostra, sobre como ela foi projetada para torná-la relevante para visitantes, à medida que enfoca características extremas como sendo normais e evidencia por que a atualidade é um grande momento na história evolutiva para estudar biodiversidade.

Siddal também é um curador na Divisão de Zoologia de Invertebrados do museu nova-iorquino.


[A seguir, uma transcrição editada da entrevista]:


Em que medida os organismos apresentados nessa exibição são extremos?

Na medida em que foi possível fazer o que queríamos: ter certeza de que os visitantes que vêm aqui encontrem o seu próprio lugar na exibição.

Considere, por exemplo, um fator biológico intrínseco com o qual todos nós lidamos: reprodução.

Ocorre que humanos são incrivelmente extremos quando se trata de multiplicação. Em geral, produzimos um ou dois descendentes em um evento, e eles são incapazes de andar por mais ou menos um ano.

Ou, se você observar como nos movimentamos, de fato há mais mamíferos [cinco] que põem ovos que mamíferos que andam sobre duas pernas.

Por outro lado, em aspectos que dizem respeito aos decibéis que escutamos, às frequências de luz que enxergamos, e onde vivemos em termos de temperatura e pressão, somos apenas uma espécie bem mediana, se não medíocre.

Você pode tomar qualquer parâmetro, seja uma variável biótica, como velocidade, força ou tamanho, ou uma física como temperatura, espectro de luz ou altitude, e sempre há um meio em que existe vida.

Há uma enorme diversidade dentro de cada um desses parâmetros, tanto devido aos diferentes ambientes em que existe vida, como por causa das propriedades intrínsecas dos próprios organismos.

De que forma eles também são normais?

Uma distribuição matemática “normal” é uma curva em forma de sino. Você pode escolher qualquer parâmetro e encontrar alguma coisa em qualquer uma de suas extremidades.

Então, essas coisas que estão nos extremos, no limite superior e inferior dessa distribuição normal, são normais!

Elas simplesmente não estão no meio, onde está a maioria das outras coisas.

O que estamos tentando destacar aqui é que elas tendem a ser menos numerosas, muito mais especializadas e, em certo sentido, “superlativas” em relação a outros organismos no que diz respeito à distribuição da vida.

O que isso significa para a busca de vida em outros planetas?

Quando ganhamos uma noção da diversidade de vida contida nessa fina camada de biosfera em nosso planeta, ela abre um entendimento de que há muitas possibilidades para onde podemos encontrar vida, desde que possamos reconhecê-la.

Vida, como a entendemos, é, pelo menos, baseada em líquidos para que as “coisas” possam se mover. E se movimento é parte da vida, então alguma forma de líquido, não necessariamente água, tem de proporcionar essa fluidez que permite que a vida se mova.

Quando você olha para coisas como cavernas e fontes hidrotermais de mar profundo, fica óbvio que vida pode existir na ausência de luz, e que um planeta não precisa estar necessariamente no mesmo tipo de zona em torno de seu sol como a nossa Terra está para abrigar vida.

Quanta biodiversidade ainda tem de ser estudada na Terra?

Ainda há muito para estudar, e não só em ambientes extremos.

Estamos só começando a desvendar (e dominar) a biodiversidade na Bacia do Congo. De fato, nem temos um bom domínio sobre a imensa diversidade de vida em todas as faixas de profundidade oceânicas.

Sabemos muita coisa sobre o que realmente é profundo e o que realmente é raso [criaturas, nos dois casos], mas temos aquela faixa intermediária, que constitui a maior parte do oceano, onde certamente ainda há muito para descobrir.

Portanto, há toneladas a fazer por toda parte.

O que o senhor gostaria que os visitantes levassem dessa exposição?

O simples fascínio pela diversidade de vida em forma, comportamento e capacidade; e se sentirem especiais por poderem testemunhar isso, tanto em termos de viverem neste planeta em uma era em que há uma tremenda diversidade e, penso eu, em um senso de custódia, em que sentimos a responsabilidade tanto para compreender como para preservar.

De que formas estamos vivendo em “uma época/era em que há uma tremenda diversidade”?

Imediatamente após a extinção em massa no período Permiano e outras aniquilações em massa havia muito menos diversidade.

Agora, nessa nossa época, há muita diversidade por aí e temos uma grande variedade de ambientes, de gélidos e congelados a quentes e desérticos e assim por diante; portanto esse é realmente um período de enorme diversidade no planeta.

Quando criança, eu dizia: “Uau!, Não seria bárbaro se eu vivesse em uma época em que havia dinossauros?”

Você sabe que está vivendo em uma época em que o maior animal que já viveu na Terra, a grande baleia-azul (Balaenoptera musculus), está habitando nosso planeta?

Isso é muito incrível e legal!


AMNH/R. Mickens


MARIPOSA CECROPIA Com antenas bifurcadas, munidas de dezenas de milhares de estruturas semelhantes a pelos sensoriais, essa mariposa (Hyalophora Cecropia) tem um extraordinário sentido olfativo. Esses apêndices estão particularmente ajustados para detectar as trilhas hormonais de fêmeas


AMNH/R. Mickens

CRISTAL DE SAL MICROBIANO COR-DE-ROSA Este cristal de sal tem essa cor naturalmente devido aos microrganismos que florescem no lago Searles, ultrassalino, na Califórnia. Poucos animais conseguem viver em um ambiente desses, mas esses microrganismos dominam o lago, mudando a cor da água e os cristais de sal que produz


AMNH/R. Mickens

RAFLÉSIA Você provavelmente não gostaria de chegar tão perto de uma verdadeira flor Rafflesia arnoldii. Espetacularmente fedida, ela é encontrada nas florestas tropicais do Sudeste Asiático e exala um perfume potente, similar ao de carne podre, o que atrai moscas carniceiras para polinizá-la. Esta planta parasítica não realiza fotossíntese; em vez disso, rouba nutrientes de trepadeiras próximas


AMNH/R. Mickens


FOCINHO DE PEIXE-SERRA O focinho do Pristis pristis é uma ferramenta de caça multifuncional. Suas afiadas espinhas o tornam uma poderosa arma, mas ele também é um sensível dispositivo de varredura. Em sua superfície existem poros especializados que detectam fracos campos elétricos emitidos por presas


Eye of Science/Science Source


TARDÍGRADO Carinhosamente conhecidos como “ursos d`água”, mais de mil espécies de tardígrados são encontradas ao redor do mundo em ambientes tão extremos e diversos como fontes termais e gelo antártico, assim com no pico das montanhas do Himalaia e nas profundezas oceânicas. O segredo para sua resistência: eles são capazes de reduzir drasticamente sua taxa metabólica e entrar em um estado de latência semimorta, conhecida como criptobiose, quando as condições se tornam excessivamente rigorosas


AMNH/D. Finnin


AXOLOTE Apresentado ao vivo na exposição, essa estranha salamandra (Ambystoma mexicanum) jamais faz a transição para terra na idade adulta, o que é característico da maioria de suas congêneres e outros anfíbios. Pelo contrário, ela mantém muitas de suas características juvenis, inclusive suas brânquias externas, as estruturas ramificadas na lateral de sua cabeça. Surpreendentemente, axolotes (ou axolotles) não são apenas capazes de regenerar seus membros, mas medulas espinhais esmagadas também


AMNH/ 5W Infographics/P. Velasco


POLVO MIMÉTICO Descoberto em 1998, o Thaumoctopus mimicus não é fácil de detectar. Ao mudar a forma de seu corpo desprovido de ossos e as cores e padrões em sua pele, esse polvo frequentemente assume a forma de predadores peçonhentos e venenosos como serpentes-marinhas e peixes-leões