quarta-feira, 5 de março de 2014

Espécie invasora de verme achatado descoberta pela primeira vez na Europa


O Platydemus manokwari tem uma cabeça muito achatada (do lado esquerdo) PIERRE GROS

Não é uma boa notícia: se este verme exótico se espalhar na natureza, poderá vir a dizimar os caracóis.

Vários platelmintas da Nova Guiné, uma espécie de vermes achatados que se alimentam de caracóis terrestres e que até agora eram desconhecidos na Europa, acabam de ser identificados na cidade de Caen, no oeste da França.

“Sabemos perfeitamente que em todos os sítios onde a espéciePlatydemus manokwari se instalou, destruiu toda a fauna de caracóis à sua volta” alerta Jean-Lou Justine, do Museu Nacional de História Natural em Paris e um dos co-autores da descoberta. “Mas as perspectivas são ainda piores, porque vai primeiro comer os caracóis e a seguir tudo o que mexe no solo e que tem um corpo mole, como as minhocas”, acrescenta este especialista dos platelmintas terrestres em entrevista à AFP.

A sua equipa identificou agora formalmente – e pela primeira vez no continente europeu –, esta espécie originária da Nova Guiné. Os oito exemplares estudados foram descobertos numa estufa fria do jardim botânico de Caen.

De forma muito achatada, este verme tem cinco centímetros de comprimento e cinco milímetros de largura, o dorso da cor das azeitonas pretas e o abdómem de cor mais clara. E para os cientistas que publicaram a sua descoberta esta terça-feira na revista online de acesso livre PeerJ, urge prevenir a proliferação desta espécie na Europa devido à ameaça que representa para a biodiversidade.

Já existe um precedente de invasão do Norte das ilhas britânicas por uma outra espécie de verme achatado, o Arthurdendyus triangulatus, vindo da Nova Zelândia. Este verme é, segundo os cientistas, responsável por “uma importante redução das populações de minhocas”, o que poderá ter como consequência uma diminuição da fertilidade dos solos.

Consequência da globalização

Porém, como o Arthurdendyus triangulatus não se dá bem com o calor, tem portanto um potencial invasor limitado. O Platydemus manokwari, pelo contrário, que se encontrava até aqui confinado à região indo-pacífica, parece ser “uma espécie das zonas montanhosas que vive naturalmente nas zonas alpinas e até subalpinas, mas também nas zonas temperadas frescas e quentes e até nos climas tropicais”.

“Isso permite-lhe invadir praticamente toda a metade Sul da Europa sem qualquer problema”, salienta Justine, acrescentando que o Platydemus manokwari “faz parte da lista das 100 espécies exóticas mais invasoras do mundo”.

Na região do Pacífico, este animal, que se sabe ter uma marcada preferência pelos caracóis, foi introduzido deliberadamente, enquanto agente biológico, para controlar os focos de uma praga de caracóis. Diz-se que é capaz de seguir o "trilho" dos caracóis, de trepar às árvores à procura das suas presas e até de ataques "em bandos organizados".

“[Esta espécie] teve manifestamente um grave impacto sobre a biodiversidade das populações autóctones de caracóis na região do Pacífico”, estimam os cientistas.

É verdade que estes vermes têm um ponto fraco: são muito lentos. Mas isso não os impede de se espalhar. “Basta deslocar um vaso com flores que contenha o Platydemus manokwari para o disseminar muito rapidamente”, frisa Justine.

“A verdadeira causa das invasões biológicas é a globalização, isto é, o transporte desenfreado de mercadoria sem controlos suficientes, de uma ponta à outra do planeta”, afirma ainda.

A presença de vermes achatados terrestres não autóctones, principalmente oriundas do Hemisfério Sul, já foi assinalada em 13 países europeus, incluindo Portugal. No Reino Unido, que tem laços históricos com a Austrália e a Nova Zelândia, existe pelo menos uma dúzia dessas espécies.

Em França, Justine já reportou, no seu site na Web, seis espécies invasoras para além de Platydemus manokwari. A mais frequente, designada de “castanha-achatada”, alimenta-se “muito activamente” de minhocas. “Está presente em 20 departamentos [distritos administrativos] franceses e já não é possível travá-la. Pode tornar-se um problema muito grave.”

Os vermes das espécies europeias autóctones são muito mais pequenos do que os vermes importados: têm um a dois centímetros de comprimento e um milímetro de diâmetro. “Muito discretas”, são consideradas espécies necrófagas (que se alimentam de animais mortos).

fonte: Público