quarta-feira, 5 de março de 2014

Vírus gigante com 30 mil anos ressuscitado no permafrost siberiano


O Pithovirus sibericum é o maior vírus de sempre a ser descoberto JULIA BARTOLI/CHANTAL ABERGEL/IGS/CNRS/AMU

A capacidade de este vírus “fóssil” reinfectar agora um dos seus hospedeiros naturais sugere que, com o aquecimento do Árctico, possam vir a ressurgir vírus perigosos para os humanos.

Uma equipa de cientistas franceses e russos conseguiu extrair, de uma amostra de solo da Sibéria congelado há 30 mil anos, um vírus gigante que, uma vez “ressuscitado”, se revelou capaz de infectar uma amiba. Os resultados foram publicados na última edição da revista Proceedings of the National Academy of Sciences.

O novo vírus foi baptizado Pithovirus sibericum. A sua descoberta segue-se às de outros vírus gigantes por Jean-Michel Claverie, da Universidade de Aix-Marseille (França), e colegas. Os primeiros, em 2003, foram os Mimivirus, identificados em amibas no Reino Unido; seguiram-se, em 2011, os Megavirus (parentes afastados dos Mimivirus) ao largo do Chile – e, em 2013, os Pandoravirus, de um tipo totalmente diferente, num rio no Chile e no fundo de um lago de água doce perto de Melbourne, na Austrália.

Todos estes vírus são de facto gigantes: com um comprimento da ordem do mícron (milésimo de milímetro) e uma largura que ronda o meio mícron, são visíveis ao microscópio óptico, onde surgem como manchinhas escuras maiores do que certas bactérias. Mas com os seus 1,5 mícrons de comprimento, o que foi agora descoberto na Sibéria é maior do que todos os anteriores.

Os cientistas incubaram amostras de permafrost recuperado na Sibéria – fragmentos de solo que ficaram congelados há 30 mil anos – em presença de uma amiba (Acanthamoeba castellanii) que costuma ser um hospedeiro natural dos vírus gigantes. E passados uns tempos, constataram que a amiba tinha sido infectada por um vírus gigante até aqui desconhecido, cuja forma era semelhante à dos Pandoravirus e o modo de replicação semelhante ao dos Megavirus, mas cujo genoma era muito mais pequeno do que os desses vírus.

Por um lado, estes resultados indicam que os vírus gigantes são mais diversos do que se pensava, salientam os autores. Mas por outro, também levantam uma questão preocupante: “Salvo alguns estudos sobre os vírus da gripe e da varíola à escala histórica, a possibilidade de os vírus (…) permanecerem infecciosos durante períodos de tempo muito maiores ainda não foi estudada”, escrevem os autores.

E concluem: “Os nossos resultados consubstanciam a possibilidade de que vírus patogénicos infecciosos possam ser libertados das camadas de permafrost antigo que vierem a ficar expostas devido ao descongelamento [devido às alterações climáticas] e às actividades mineiras ou de extracção de combustíveis fósseis.”

fonte: Público