quinta-feira, 20 de agosto de 2015

A mão humana moderna, afinal, é antiga. Tem 1,84 milhões de anos




O fóssil, fotografado de várias perspetivas, mostra que a mão a que ele pertenceu, há 1,84 milhões de anos, tinha características modernas

Um pequeno osso de 3,6 cm encontrado na Tanzânia mostra que as "inovações" que a evolução trouxe às mãos dos hominídeos surgiram mais cedo do que até agora se pensava.

É ainda mal conhecida a evolução da mão humana moderna, que remeteu para a noite dos tempos a vida dos hominídeos nas árvores e abriu caminho às primeiras pinturas e aos primeiros instrumentos. Não ajuda o facto de haver poucos registos fósseis, por isso, sempre que surge uma nova peça deste puzzle, a história completa-se um pouco mais. É o caso agora com a descoberta de um pequeno osso fossilizado, uma falange do dedo mindinho, que mostra que a mão humana moderna é, afinal, mais antiga do que se supunha - tem pelo menos 1,84 milhões de anos.

O pequeno fóssil, que foi descoberto por um grupo internacional de paleontólogos no sítio de Olduvai Gorge, na Tanzânia, corresponde a uma falange de mão humana, um osso com 3,6 cm, datado de há 1,84 milhões de anos, o mais antigo do género que até hoje se descobriu e que mostra que a história da evolução da mão humana é mais antiga do que se supunha - e também tem mais que se lhe diga.

No estudo sobre o novo fóssil, publicado nesta semana na revista Nature Communications, os autores explicam que o dono daquela mão, cuja espécie não foi possível identificar com base apenas no pequeno osso (não se encontrou mais nenhum), mas que se sabe que tinha pelo menos aquela característica moderna, conviveu há quase dois milhões de anos com outros hominídeos seus contemporâneos, como o Paranthropus boisei ou o Homo habilis, cujas mãos eram menos modernas.

Dessa coexistência emerge também um novo quadro, em que a evolução surge como um processo mais complexo, em que se observam avanços que por muito tempo coexistem ainda com outras características mais antiquadas.

Até à descoberta do novo fóssil, que é o exemplo perfeito daquela coexistência de características modernas com outras mais antigas, um outro achado recente já havia mostrado que a mão humana, com as suas características revolucionárias que ajudaram o Homo sapiens a mudar a face do planeta e a construir máquinas para viajar para fora dele, evoluiu há mais tempo do que se pensava.

Essa descoberta, feita no Quénia, na região de Turkana, no início da década, foi o fóssil de um osso do metacarpo, que liga a base do terceiro dedo ao pulso. Até ao achado da falange de dedo mindinho, aquele era o registo mais antigo, com 1,42 milhões de anos, relacionado com a mão humana, mostrando já surgimento de características modernas nessa época. Com a falange do dedo mindinho, recuamos ainda mais no tempo, até há 1,84 milhões de anos.

A dimensão da falange, com 3,6 cm, também dá que pensar. Ela mostra que o indivíduo ao qual pertenceu era enorme, como sublinham os autores do estudo. "Não se conseguia perceber como o Homo habilis, que só media um metro, podia caçar de forma eficiente animais grandes. Esta descoberta mostra que um hominídeo maior e de características mais modernas também viveu nessa época, naquela região", afirmou o principal autor do estudo, o espanhol Manuel Domínguez-Rodrigo, do Instituto da Evolução em África, de Madrid, ao diário El Mundo. O hominídeo mais parecido com as características que o fóssil implica era o Homo erectus, mas este só surgiu 300 mil anos depois, há cerca de 1,8 milhões anos. É bem possível, portanto, que este fosse um seu antepassado.