terça-feira, 4 de setembro de 2012

O património cultural subaquático açoriano


O tráfego marítimo, mercantil e militar no mar dos Açores resultou na ocorrência de numerosos naufrágios ou na perda de materiais em zonas de fundeadouro, de várias nacionalidades e proveniências, conferindo ao património cultural subaquático e marítimo açoriano uma dimensão internacional.

Galeões espanhóis, naus e caravelas portuguesas, baleeiras ou hidroaviões americanos. A documentação escrita regista cerca de 800 naufrágios desde o séc. XVI, com particular expressão para os navios portugueses e castelhanos dos séc. XVI e XVII, em que a Região se assumiu como uma das zonas com maior concentração à escala mundial.


O desenvolvimento do mergulho revelou desde cedo o potencial remanescente deste património, com os primeiros vestígios submersos identificados logo na década 1960. Na década seguinte, equipas britânicas efectuaram salvados na ilha Terceira, que dão conta da descoberta de pelo menos cinco naufrágios e de uma peça de artilharia em bronze, actualmente depositada no Museu de Angra.

Estes trabalhos pioneiros, a par das descrições que nos chegaram em documentação oficial ou literatura da época, que nos falam de fabulosas cargas perdidas nas ilhas, perpetuam até hoje omito do ouro e a cobiça de caçadores de tesouros. Foram várias as tentativas de legalização de salvados, que tiveram no polémico Decreto-Lei 289/93 o último esforço com carácter político e institucional. Prática contrária aos princípios éticos da Arqueologia, que busca o conhecimento do passado através dos seus vestígios materiais e a partilha pública colectiva do património arqueológico, visto como bem cultural inalienável.

Com o Decreto-Lei 164/97 a exploração organizada do património cultural subaquático (PCS) açoriano assentou sempre em postulados científicos, tendo nos trabalhos pioneiros do Institut of Nautical Archaeology um importante contributo, através da avaliação entre 1995 e 2001 de vários naufrágios conhecidos pela comunidade de mergulhadores açorianos.

Na mesma altura, um novo quadro legal e institucional, com a criação de estruturas com tutela sobre o PCS e com a entrada da arqueologia nas estratégias de minimização ambiental em obras portuárias ou de alteração do litoral, permitiu conhecer melhor vários sítios arqueológicos em diferentes ilhas do arquipélago. 

Em 1998 foram escavados dois navios em madeira do séc. XVII (Angra C e D), localizados na zona de implantação do novo porto de recreio de Angra do Heroísmo; em 2000, foi efectuada a escavação parcial do sítio de naufrágio da fragata inglesa HMS Pallas (1783) na vila da Calheta; e, em 2008 foram localizados no porto de Ponta Delgada dois navios oitocentistas.


No mesmo ano, deu-se início aos trabalhos de minimização do projecto de requalificação e reordenamento da frente marítima da cidade da Horta, onde foram descobertos vários vestígios, entre os quais um naufrágio britânico do séc. XVIII com uma impressionante carga de marfim em presa. A par da arqueologia preventiva, o arquipélago dos Açores tem assumido um papel relevante na investigação.

Em 2002 e 2004, foram efectuados trabalhos no sítio de naufrágio da nau da Carreira da Índia Nossa Senhora da Luz, que soçobrou na ilha do Faial em 1615. Desde 2006, o Centro de História de Além-Mar vem desenvolvendo vários projectos na baía de Angra, um dos quais se encontra actualmente em curso com a escavação do navio do séc. XVI ou XVII Angra B.

Ao mesmo tempo, a Direcção Regional da Cultura deu corpo ao Projecto de Carta Arqueológica dos Açores, instrumento de gestão essencial, e a estratégias de protecção, com a criação dos Parques Arqueológicos da Baía de Angra e do Dori. A diversidade do PCS açoriano constitui uma mais-valia dos pontos de vista científico e patrimonial que urge potenciar.

A Região tem condições únicas para se tornar num pólo de investigação e ensino da arqueologia subaquática 

A Região tem condições únicas para se tornar num pólo de investigação e ensino da arqueologia subaquática, como sejam a boa visibilidade das suas águas e a grande concentração de vestígios em torno aos principais portos insulares, de fácil acesso.

O carácter universal dos vestígios existentes no arquipélago interessa a várias comunidades científicas, potenciando a internacionalização da ciência açoriana. Vários sítios têm potencial cultural elevado, permitindo a criação de produtos turísticos de excelência, de mergulho ou em estruturas museológicas, que coloquem os Açores nos circuitos do turismo cultural.

Para saber mais visite a Exposição Histórias que vêm do Mar, na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, até 10 de Novembro de 2012).


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