segunda-feira, 30 de maio de 2016

Portugueses desenvolvem robô de exploração de Marte

Portugueses desenvolvem robô de exploração de Marte

Mars Yard vai ser lançado em 2020

Engenheiros fazem parte da equipa que está em Londres. 

Capacidade de autonomia e resistência a um ambiente hostil são alguns dos requisitos de um veículo que irá explorar o planeta Marte em busca de sinais de vida, dizem os engenheiros portugueses envolvidos no projeto. 

Sete engenheiros aeroespaciais e informáticos portugueses trabalham com técnicos e cientistas de muitas outras nacionalidades nas instalações do grupo Airbus Defence and Space, em Stevenage, a norte de Londres, onde se encontra o centro de testes 'Mars Yard', onde é simulada a superfície marciana. 

É neste local que são feitos os testes do robô autónomo ('rover') que vai ser lançado em 2020, dois anos mais tarde do que o previsto devido a problemas técnicos e financeiros, na segunda fase da missão 'ExoMars', que junta a Agência Espacial Europeia (ESA) e a homóloga russa Roscosmos. 

Ao contrário das máquinas enviadas pela agência espacial norte-americana NASA, que foram desenhadas para estudar a geografia do planeta e procurar água ou sinais de vida, o robô da ESA foi desenhado especificamente para descobrir se há ou se houve vida em Marte. 

Para recolher essa informação, o veículo autónomo está equipado com uma broca capaz de perfurar até à profundidade de dois metros, indo assim para além da camada superior do solo, que está sujeita a pressões atmosféricas, radiações muito fortes do sol e a variações de temperatura. 

O clima em Marte sofre diferenças de temperaturas grandes entre noite e dia, que podem variar entre os -120º e os 50º, o que implica que a construção de veículos de exploração tenha de estar preparada para resistir a este ambiente inóspito e hostil. 

O 'Mars Yard' reproduz a superfície rochosa do planeta com pedras de diferentes dimensões e areia igual à usada nos campos de ténis por causa da sua cor avermelhada, importante para que os sensores sejam capazes de reconhecer estes elementos. 

"Temos de garantir que o 'rover' tem capacidade para ser autónomo. Garantir que ele próprio, após ter um ponto de chegada, consegue descobrir o caminho e seguir o caminho consoante os obstáculos que são colocados à sua frente", diz Vasco Pereira, Engenheiro arquiteto de Controlo de Navegação e Orientação. 

O veículo, acrescentou, deve ser capaz de "chegar a esse ponto de destino sem que haja uma interação constante dos operadores na Terra e fazê-lo sem ter qualquer impacto que o ponha em perigo - não ficar enterrado na areia ou tentar ultrapassar obstáculos muito elevados que o bloqueiem". 

Um dos elementos importantes para a deslocação do robô são as câmaras que estão em diferentes posições no veículo e cujo uso vai para além de captar imagens do planeta, enfatizou Nuno Silva, chefe do departamento de Controlo de Navegação. 

"É o principal, porque tudo isto é baseado na visão. Pegamos nas imagens, detetamos os obstáculos e também usamos as imagens para saber onde estamos e depois temos tudo o que é controlo para termos a certeza de que seguimos a trajetória que fizemos", referiu. 

Equipado com sensores de locomoção nas rodas e sensores inerciais que medem velocidade angular e aceleração da gravidade, o robô está equipado com tecnologia de ponta, mas tudo depende da parte informática, onde estão envolvidos mais portugueses. 

"Não podemos construir o 'Rover' com um nível de inteligência básico, é impensável ser a partir da Terra que se comande (parâmetros como) o ângulo das rodas. Toda essa inteligência tem de ser desenvolvida e integrada no computador de bordo", diz Rui Lopes, responsável de Validação do Software. 

Uma das características inéditas desta missão espacial é a existência de dois processadores com 'software' diferente. 

"É através do 'software' que conseguimos comunicar com o 'rover', conseguimos recolher os dados científicos e conseguimos fazer com que no final tenhamos resultados da parte científica", adiantou. 

"O nosso trabalho é fazer testes ao longo de todo o ciclo de vida do 'software', para garantir que está a funcionar como é suposto. Em funções concretas, temos de ler os requisitos, desenhar e especificar os testes e implementá-los, executá-los no simulador e reportar os erros que encontramos", descreve Luís Gil, engenheiro de 'software'. 

Funcionário da empresa portuguesa Critical Software, tal como o colega e também engenheiro de 'software' David Gil (sem parentesco com Luís Gil), está colocado temporariamente no Reino Unido há dois anos. 

"A Critical (Software) tem uma relação de longa duração com a Airbus. Já trabalhámos em vários projetos anteriores e continuamos a ser parceiros, a fornecer serviços de desenvolvimento e de validação de 'software'", clarificou Luís Gil. 

O facto de existirem mais portugueses na empresa, como Filipe Pedrosa, engenheiro de 'software', e Luís Campos, arquiteto de 'software', ajuda na integração dos trabalhadores temporários, admite. 

"É uma comissão de boas vindas que nos ajuda a integrar, a perceber como funciona tanto a empresa como o país que nos acolhe. Costumamos juntar-nos, volta e meia ao fim de semana, almoçamos juntos durante a semana e às vezes vamos ver o futebol", conta, a sorrir.