sábado, 16 de março de 2019

Ibéricos descendem na maioria de povos das estepes russas, revela estudo genético


O maior estudo já feito sobre a história genética dos habitantes da Península Ibérica, hoje divulgado, revela que os ibéricos são maioritariamente descendentes de povos que migraram das estepes russas e que foram os bascos que menos se misturaram depois.

O estudo, publicado na revista Science, foi liderado pela Harvard Medical School, dos Estados Unidos, e pelo Instituto de Biologia Evolutiva, de Barcelona, Espanha, tendo a colaboração de um total de 111 investigadores, incluindo portugueses, da Universidade do Minho, da Universidade de Coimbra e da Universidade de Lisboa.

Num comunicado, a Universidade do Minho (UM) diz que a região ibérica é agora, provavelmente, a mais bem caracterizada do mundo ao nível do ADN humano antigo. Pedro Soares, do Centro de Biologia Molecular e Ambiental, da UM, foi um dos participantes no trabalho.

O estudo analisa a população da região hoje dividida entre Portugal e Espanha dos últimos 8.000 anos, incluindo o fluxo genético correspondente à chegada da agricultura, há 7.500 anos, as trocas genéticas com o norte de África, desde há 4.000 anos, e o grande fluxo migratório do início da idade do bronze, há 4.500 anos, a partir das estepes russas e ucranianas.

“O padrão destes migrantes representava na altura cerca de 40% do perfil genético da Península Ibérica e praticamente 100% das linhagens masculinas do território. Isso sugere que aqueles migrantes das estepes eram sobretudo do sexo masculino e, de algum modo, substituíram os homens locais”, explica Pedro Soares, citado no comunicado da UM.

Ou seja, a investigação provou que um grande número de homens da Europa central se deslocou para a Península Ibérica e se juntou a mulheres locais, substituindo a população masculina existente.

As equipas analisaram os genomas de 403 antigos ibéricos que viveram entre 6.000 A.C. e 1.600 D.C., 975 pessoas de fora da Península Ibérica e cerca de 2.900 habitantes atuais da península.

A investigação permitiu concluir que em 2.500 A.C., há 4.500 anos, não havia ancestrais recentes de fora da Península e que 500 anos depois os ancestrais por via paterna iam dar à Europa central e de leste.

Diz o estudo que 40% dos antepassados gerais e 100% dos ancestrais patrilineares (pais e pais dos pais) podem ser rastreados até aos grupos que tinham chegado das estepes russas e ucranianas.

Os investigadores consideram o resultado surpreendente. Não acreditam na possibilidade de os homens ibéricos terem sido exterminados ou deslocados à força, porque não há indícios de violência nesse período, e admitem como possível explicação que as mulheres ibéricas, por alguma razão, preferissem os recém-chegados.

Apesar de ao longo dos séculos a ascendência paterna ter continuado a evoluir, diz a equipa de investigadores que a maioria dos homens da Península Ibérica de hoje são descendentes por parte do pai daqueles recém-chegados da Idade do Bronze.

O estudo conclui ainda que os bascos atuais são geneticamente semelhantes aos da Idade do Ferro, fazendo deles uma espécie de população típica dessa altura, o que faz supor que a ancestralidade e a língua bascas não foram afetadas depois da transformação operada pela chegada dos homens das estepes e permaneceram relativamente intactas, enquanto outros grupos à sua volta se misturaram de forma mais significativa ao longo do tempo.

Os investigadores identificaram ascendentes norte-africanos nas populações ibéricas datados de cerca de 2.000 anos antes de Cristo, indicando um fluxo dessa região para a Europa.

E já na era atual a ascendência norte-africana foi mais difundida na Península Ibérica, ocorrendo as influências genéticas muito antes da conquista árabe da Península durante o século VIII.

Revelando os principais eventos que moldaram as populações antigas da Península Ibérica, o estudo dá uma ideia dos movimentos e migrações do homem antigo.

E conclui também, por exemplo, que os grupos de caçadores-recoletores que viviam na Península Ibérica na altura do Mesolítico, cerca de 8.000 anos A.C., tinham uma composição genética muito diferente dos que viveram 5.500 antes de Cristo.

Tal sugere que já nessa altura havia migrações para a Península Ibérica, algo que conclui um outro estudo, também hoje divulgado na revista Current Biology.

Este estudo analisou os caçadores-recoletores e antigos agricultores que viviam na Península Ibérica entre há 13.000 e 6.000 anos.

Na última idade do gelo, que terminou há cerca de 12.000 anos, a Península Ibérica permaneceu relativamente quente, mantendo plantas e animais, funcionando como refúgio e recebendo migrantes do resto da Europa. A posição geográfica, ao lado do Mediterrâneo e do norte de África, terá também contribuído para essa mistura de povos.

fonte: Sapo24

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