sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Arqueólogos desenterram cidade da Idade do Bronze no Norte do Iraque



Equipa nas escavações em Bassetki, entre Agosto e Outubro de 2016 P. PFÄLZNER

A descoberta foi feita na aldeia de Bassetki, na região autónoma do Curdistão, a cerca de 45 quilómetros do território controlado pelo Daesh. Os achados revelam uma cidade que nasceu três mil anos a.C.

Uma equipa de arqueólogos da Universidade de Tübingen, na Alemanha, escavou o chão do Iraque entre Agosto e Outubro de 2016 e colocou a descoberto uma cidade da Idade do Bronze perto da cidade de Dohuk, no Norte do Iraque. As escavações feitas no local, a poucos quilómetros do território controlado pelo Daesh, mostram que na aldeia de Bassetki existia uma cidade com uma extensa rede de estradas, vários bairros residenciais, grandes casas e um “sumptuoso edifício”, que datam da Idade do Bronze, ou seja, que têm cerca de cinco mil anos.

Bassetki é definitivamente um ponto a assinalar no mapa dos arqueólogos. A aldeia ficou conhecida depois da descoberta, em 1975, de uma estátua de puro cobre, com 150 quilos, e que mostra a figura de um homem nu sentado (apenas as pernas e uma parte do tronco ficaram preservados) sobre um pedestal redondo. A estátua de Bassetki, um monumento do período acadiano (2350-2100 a.C.), foi um achado valioso que ficou célebre quando foi roubada do Museu Nacional do Iraque durante a invasão do Iraque, em 2003. Acabou por ser recuperada por militares norte-americanos em Outubro desse ano e devolvida ao museu.


A estátua de Bassetki, um monumento do período acadiano (2350-2100 a.C.) que foi descoberto em 1975 DR

As novas descobertas feitas em Bassetki pela equipa liderada por Peter Pfälzner, da Universidade de Tübingen, e Hasan Qasim, director do Departamento de Antiguidades de Dohuk, realçam a importância que este local terá tido para a cultura acádia. As escavações mostram que ali terá existido uma cidade estabelecida três mil anos a.C. e que perdurou durante cerca de 1200 anos.

Os arqueólogos encontraram camadas que datam do Império Acádio, que é considerado o primeiro império mundial da história. “A cidade tinha uma muralha ao longo da sua parte mais alta, de 2700 a.C. para a frente, que serviria para proteger os residentes de invasores”, refere um comunicado da universidade alemã, que adianta ainda que “grandes estruturas de pedra foram erguidas no local em 1300 a.C.” Os arqueólogos também descobriram fragmentos de placas com escrita cuneiforme (desenvolvida pelos sumérios), que parecem indicar a existência de um templo a Adad, deus mesopotâmio do clima.

O trabalho de prospecção arqueológica incluiu medições geomagnéticas, que revelaram a existência de uma zona habitacional com bairros e casas grandes, estradas e uma espécie de palácio da Idade do Bronze. “Os residentes enterravam os seus mortos num cemitério situado fora da cidade”, nota o comunicado. A cidade, referem ainda, estaria ligada às regiões vizinhas da Mesopotâmia e Anatólia por uma estrada que data de 1800 a.C.

Desde 2013 que Peter Pfälzner e a sua equipa integram um projecto de investigação que tem como objectivo uma extensa e cuidadosa inspecção arqueológica do território à volta de Bassetki, até às fronteiras turcas e sírias. O trabalho já permitiu identificar mais de 300 locais de interesse. No Verão de 2017, as escavações vão continuar. “A área à volta de Bassetki está a revelar-se uma inesperada e rica região cultural, que estava situada num cruzamento entre as culturas da Mesopotâmia, Síria e da Anatólia durante a Idade do Bronze.”

Sobre a segurança da equipa no local das escavações, situado a apenas 45 quilómetros do território controlado pelo Daesh, Peter Pfälzner assinala que não foi registado qualquer problema. “A protecção dos funcionários é sempre a prioridade. Apesar da proximidade geográfica do Daesh há segurança e estabilidade nas áreas autónomas do Curdistão no Iraque.” A equipa envolvida neste projecto em Bassetki esteve a viver em Dohuk, que fica a apenas a 60 quilómetros a norte de Mossul, importante cidade iraquiana tomada pelo Daesh em 2014. 

fonte: Público