terça-feira, 12 de julho de 2016

Gafanhoto com chip no cérebro é o próximo detetor de bombas


Marinha americana atribui mais de 670 mil euros a uma equipa da Universidade de Washington para desenvolver o novo ciborgue. Protótipo deverá estar pronto em dois anos

A marinha americana deu uma verba de 750 mil dólares (quase 678 mil euros) a uma equipa de investigadores da Universidade de Washington, em St. Louis, nos Estados Unidos, para estes desenvolverem um novo dispositivo de deteção de bombas e de explosivos. E a grande aposta tecnológica é... um gafanhoto ciborgue, com um pequeno transmissor às costas para cumprir as suas missões.

Podia até parecer brincadeira, mas não é. O primeiro protótipo deverá ser testado já daqui a um ano e, dentro de dois, a equipa conta ter operacionais os primeiros gafanhotos "snifadores", para os entregar à marinha de guerra dos Estados Unidos.

Usar o poderoso olfato de animais para detetar explosivos não é novidade. Os cães treinados, por exemplo, conseguem cheirar explosivos ocultos - e droga, sangue, cadáveres... depende da especialidade que se lhes atribuiu -, e a marinha americana há mais de meio século que usa golfinhos e leões-marinhos para detetar e recuperar explosivos no mar ou colocados em casos de embarcações. Essa "tropa especial" esteve, aliás, muito ativa no Vietname e, mais recentemente, também na invasão do Iraque (ver caixa). Mas um gafanhoto ciborgue é outra coisa.

Além de aproveitarem a particular capacidade que os gafanhotos têm de detetar um odor específico num ambiente que pode estar inundado de muitos outros, os cientistas liderados pelo especialista em engenharia biomédica Barani Raman pretendem introduzir no cérebro do animal um dispositivo eletrónico miniatural capaz de traduzir em impulsos elétricos a atividade neural do animal relacionada com o processamento olfativo. Os sinais elétricos serão depois captados por uma antena por um retransmissor, ambos colocados nas costas do gafanhoto, e a informação é em seguida visualizada num computador.

Barani Raman, que dirige na Universidade de Washington um laboratório com o seu próprio nome, o Raman Lab, estuda há anos o sistema olfativo e a forma como os seus sinais são processados em cérebros simples, como são os dos gafanhotos, o que lhe permitiu chegar a um conhecimento muito detalhado de como esse processamento funciona.

No âmbito desse trabalho, o grupo de Barani Raman demonstrou que é possível treinar gafanhotos para reconhecer um odor - que corresponde, afinal, a uma substância química -, mesmo quando ele está misturado no ambiente circundante com muitos outros.

"A biologia conseguiu chegar a uma solução para este problema [a identificação de um cheiro, mesmo quando há outros presentes] e portanto é preciso conhecer os seus princípios fundamentais para podermos imaginar dispositivos de engenharia para a mesma função", explica Barani Raman, citado num comunicado da sua universidade.

Por outro lado, "dado que a natureza chegou a este refinamento, para quê reinventar a roda? Porque não havemos de tirar partido da solução biológica que já existe?", pergunta-se o cientista.

A sua resposta não podia ser mais clara: aproveite-se a solução biológica, ou seja, o gafanhoto, equipe-se o animal com o que lhe falta para o propósito desejado - os implantes cerebrais eletrónicos e a mochila com os transmissores - e faça-se deste inseto ciborgue o mais sofisticado dos "snifadores" bombas e explosivos que já existiram. No caso dos gafanhotos há uma vantagem acrescida, garante Barani Raman. É a rápida recuperação da intervenção para colocar um minúsculo chip no seu minúsculo cérebro. "No dia seguinte estão como se não tivesse acontecido nada", diz o cientista.

A equipa, que inclui Srikanth Singamaneni, engenheiro de materiais, e de Shantanu Chakrabartty, investigador em computação, vai começar por monitorizar a atividade neural de gafanhotos para determinar os sinais correspondentes a cada odor, o que depois vai ser tratado em computador. E será a partir dessa base de dados que se fará o resto.


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