sábado, 9 de abril de 2016

O homem das Flores deixou-nos há mais tempo do que pensávamos


Últimos trabalhos arqueológicos, entre 2007 e 2014, na gruta de Liang Bua, na ilha das Flores EQUIPA LIANG BUA


Crânio da mulher encontrada na ilha das Flores, que serviu de referência à identificação da nova espécie Homo floresiensis BEAWIHARTA/REUTERS


Os ossos encontrados da mulher Homo floresiensis BEAWIHARTA/REUTERS


Estudo das camadas de sedimentos da gruta EQUIPA LIANG BUA

Fósseis humanos encontrados numa ilha indonésia há quase 12 anos foram novamente datados. Têm afinal à volta de 60 mil anos – por isso, ao invés do que se supunha, esses humanos e a nossa espécie podem nunca se ter cruzado.

Numa nova reviravolta, o homem das Flores volta a surpreender-nos, ao ver agora a idade dos seus fósseis corrigida: afinal, esta espécie humana não viveu até há 12 mil anos, o que significava que teria coexistido com a nossa própria espécie até muito tardiamente, e terá mesmo desaparecido muito tempo antes disso. Uma nova datação dos ossos do homem das Flores e dos sedimentos onde se encontravam concluiu que os fósseis desta espécie humana — descobertos em 2003 na gruta de Liang Bua, na ilha das Flores, na Indonésia — têm afinal cerca de 60 mil anos.

Esta revisão da idade dos exemplares do homem das Flores, apontando-lhe mais quase 40 mil anos do que se considerava antes, é publicada na edição desta quinta-feira da revista Naturepor uma equipa internacional de cientistas, que fez mais escavações arqueológicas na gruta de Liang Bua, entre 2007 e 2014. E vem baralhar de novo o quebra-cabeças da evolução humana. Porquê?

Porque há cerca de 50 mil anos a nossa espécie, o Homo sapiens, que já tinha saído de África e estava a espalhar-se por todo o planeta, já se tinha aventurado até às ilhas do Sudeste asiático, onde se localiza a ilha das Flores, e estava mesmo a chegar à Austrália. Também se dirigia para a Europa, onde chegaria há aproximadamente 40 mil anos. Ora a correcção na idade dos fósseis do homem das Flores tem implicações na história das migrações humanas: as duas espécies (ele e nós) podem ter coexistido no tempo, mas será que chegaram a encontrar-se?

Doze anos de controvérsias

A descoberta do homem das Flores, em Agosto de 2003, foi uma surpresa e lançou confusão na árvore evolutiva humana, já de si confusa. Coordenada pelo arqueólogo Michael Morwood (já falecido), da Universidade de Wollongong, na Austrália, essa equipa de cientistas australianos e indonésios encontrou os ossos de uma mulher — incluindo o seu crânio — no solo, a cerca de seis metros de profundidade, na gruta de Liang Bua. No ano seguinte, em Outubro, na revista Nature, a equipa anunciava a descoberta e defendia tratar-se de uma nova espécie de humanos.

Começava aí a controvérsia, que tornou de imediato este achado mundialmente famoso. Antes de mais, porque até essa altura estávamos convencidos de que éramos, há muito mais tempo, os únicos humanos que restavam no planeta. Até aí, os neandertais eram considerados os nossos últimos companheiros, desaparecidos há cerca de 28 mil anos (e a Península Ibérica, depois de terem vivido por toda a Europa e Médio Oriente, foi o seu último refúgio).

Ao fóssil da mulher que ocupou a gruta de Liang Bua atribuiu-se a idade de 18 mil anos. E, em camadas de sedimentos mais antigas e mais recentes, que então se pensava terem entre 95 mil e 12 mil anos, encontraram-se ainda restos fragmentados de outros indivíduos. Também havia ferramentas de pedra e ossos de animais já desaparecidos.

Foram os ossos da mulher, em particular o crânio, que serviram de referência para identificar a nova espécie humana. O crânio era extremamente pequeno (cerca de 400 centímetros cúbicos de capacidade, idêntica à dos chimpanzés) e os ossos dos membros desta mulher, já adulta, revelavam que era muito baixa (1,06 metros). Em termos de aparência, recorda um comunicado da equipa que publica os novos resultados, ela assemelhava-se mais às espécies humanas que viveram em África e na Ásia entre há um e três milhões de anos.

O nome da nova espécie: Homo floresiensis, ou homem das Flores. Como seriam indivíduos muito pequenos, os cientistas até consideraram atribuir-lhe o nome científico Homo hobbitus, numa alusão ao mundo imaginado por J.R.R. Tolkien em O Hobbit e O Senhor dos Anéis. Informalmente, os membros da nova espécie são conhecidos por hobbits.

No seu conjunto, os fósseis encontrados na gruta de Liang Bua permitiram aos cientistas dizer, na altura do anúncio da descoberta, que o homem das Flores teria surgido há cerca de 95 mil anos e que a sua existência se teria prolongado até há 12 mil anos, quando desapareceu. E, aí sim, teríamos ficado sozinhos, como espécie humana, no planeta.

Mas na comunidade científica muitos duvidaram de que se trataria de uma nova espécie humana, sobretudo devido ao facto de o crânio ser muito pequeno, e esta questão esteve no centro da controvérsia.

Houve quem considerasse que eram indivíduos da nossa espécie, o homem moderno — mas enquanto para alguns cientistas eles tinham microcefalia, um problema neurológico caracterizado por um crânio e um cérebro muito pequenos e deficiências mentais, para outros eram apenas pigmeus, uma vez que ainda hoje existem nas Flores populações de baixa estatura. Outros puseram ainda a hipótese de ser um Homo sapiens com síndrome de Down.

Para a equipa da altura, porém, a ausência de queixo — uma característica única da nossa espécie — era uma prova de que os fósseis do homem das Flores não eram nem de um Homo sapiensmicrocéfalo nem muito baixo, mas sim de uma outra espécie. Vários estudos reforçaram esta tese, comparando, por exemplo, a forma do cérebro do homem das Flores com a de indivíduos da nossa espécie microcéfalos e saudáveis. Esta discussão parece estar um pouco mais calma nos últimos tempos.

A culpa foi dos sedimentos

Agora, Thomas Sutikna (da Universidade de Wollongong e do Centro Nacional de Investigação para a Arqueologia, na Indonésia) e os colegas, incluindo muitos da equipa original, regressaram ao homem das Flores com outro artigo. Desta vez, relatam que os últimos oito anos de escavações puseram a descoberto uma organização das camadas de sedimentos da gruta mais complexa do que se pensava. O que permitiu corrigir a idade dos fósseis.


Gruta de Liang Bua, na ilha das Flores, em preparação para as últimas escavações GABINETE DO PROGRAMA DE DIGITALIZAÇÃO SMITHSONIAN/EQUIPA LIANG BUA

“Durante as nossas escavações originais não nos apercebemos de que os depósitos do hobbit perto da parede leste da gruta tinham uma idade semelhante aos do centro da gruta, que tínhamos datado com cerca de 74 mil anos”, explica Thomas Sutikna, no comunicado de imprensa. “À medida que todos os anos alargávamos a escavação original, tornou-se cada vez mais claro de que havia um grande ‘pedestal’ de depósitos mais antigos que tinha sido separado [dos outros sedimentos] por erosão da superfície e que estava bastante inclinado em direcção à entrada da gruta.”

Acontece que aquela superfície erodida da gruta foi coberta por sedimentos mais recentes, nos últimos 20 mil anos. “Infelizmente, no início pensava-se que as idades desses sedimentos sobrepostos se aplicava aos restos do hobbit, mas a continuação das nossas escavações e análises revelou que esse não era o caso”, diz outro dos autores do trabalho, Wahyu Saptomo, do Centro Nacional de Investigação para a Arqueologia indonésio.

O retrato aperfeiçoado das camadas de sedimentos da gruta de Liang Bua, que revela que os depósitos não estão distribuídos de forma uniforme, bem como datações dos vestígios arqueológicos, por vários métodos, vêm assim contar uma nova história. “Datámos carvão, sedimentos, mantos estalagmíticos, cinzas vulcânicas e mesmo os ossos do Homo floresiensis, utilizando os métodos científicos mais avançados disponíveis”, acrescenta o investigador que na equipa supervisionou as datações, Richard Roberts, da Universidade de Wollongong. “Na última década, melhorámos bastante o conhecimento sobre os depósitos acumulados em Liang Bua e o que isso significa para a idade dos ossos do hobbit e das ferramentas de pedra.”

Resultado: as datações de todos os restos ósseos do Homo floresiensis concluíram que, afinal, têm entre 100 mil e 60 mil anos, e que as ferramentas de pedra cujo fabrico é atribuído a esta espécie vão até aos 50 mil anos. “Se o Homo floresiensissobreviveu de há 50 mil anos para cá — encontrando potencialmente outros humanos modernos nas Flores ou outros hominíneos que se espalhavam pelo Sudeste da Ásia, como os denisovanos [descobertos só em 2008 na gruta Denisova, nos montes Altai, na Sibéria, e que viveram até há 30 mil anos] — é uma questão em aberto”, lê-se no artigo científico.

Com quem se cruzou e quando é que nos deixou exactamente são agora perguntas que ficam para os próximos capítulos da incrível história da evolução humana.

fonte: Público