quarta-feira, 20 de abril de 2016

Estamos mais próximos dos egípcios do que imaginamos


A expectativa é grande mas o egiptólogo Luís Manuel de Araújo está convencido de que o túmulo da rainha Nefertiti não será encontrado dentro do de Tutankhamon. Mas nada disso fará abalar – pelo contrário – o fascínio que desperta uma civilização que terá mais a ver com o cristianismo do que parece

Luís Manuel de Araújo é o mais carismático dos egiptólogos portugueses. Ninguém fala com tanto entusiasmo e paixão sobre o Egipto Antigo, seja nas aulas na Faculdade de Letras, nas visitas aos museus portugueses onde há peças egípcias ou nas viagens anuais ao próprio Egipto com grupos de interessados.

Quando o contactámos pela primeira vez, pedindo-lhe esta entrevista a pretexto da eventual descoberta do túmulo da rainha Nefertiti dentro do de Tutankhamon, estava a preparar-se para partir mais uma vez, mas prometeu que falaríamos quando regressasse do Egipto. “Volto sempre bronzeado e rejuvenescido”, garantiu.

Autor de vários livros, entre os quais Os Grandes Faraós do Antigo Egipto, Erotismo e Sexualidade no Antigo Egipto e O Egipto Faraónico – Uma civilização com três mil anos, professor de História e Cultura Pré-clássica e investigador do Centro de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, colaborador do blogue Faraó e Companhia, Luís Manuel de Araújo é um comunicador nato. Em duas horas de conversa explicou as razões do fascínio que todos temos pelo Egipto Antigo. E confessou não acreditar que o túmulo de Nefertiti esteja prestes a ser descoberto. Mas, diz, o mistério não desaparecerá nunca. “Tem de haver sempre salas e túmulos por descobrir, tesouros por encontrar. O Egipto é inesgotável.”

Nós últimos meses a emoção voltou a subir entre os egiptólogos perante a possibilidade de se descobrir o túmulo de Nefertiti, numa câmara escondida dentro do túmulo de Tutankhamon. Os trabalhos estão a decorrer e espera-se um desfecho em breve. Como é que encara esta notícia?

Já nada me surpreende. Não quer dizer que fique insensível, mas a minha reacção é semelhante a reacções tidas acerca de eventuais câmaras ocultas dentro da grande pirâmide. Isto é muito parecido com o que se disse há uns anos sobre o eventual túmulo da Cleópatra, que estaria num oásis ali perto. Ou o de Alexandre, que estaria algures no centro de Alexandria.

Estou convencido que vai acontecer o mesmo que tem acontecido até hoje: não há nada. Mas é isto que mantém o sortilégio e a expectativa.

Os egípcios inventaram, muito antes de outros povos, a ideia notável de que havia, além deste mundo, um outro, um paraíso. Pudera, já o tinham na terra: é um rio, o Nilo

Mas a notícia é dada pela National Geographic e pelas altas autoridades ligadas ao Antigo Egipto.

Sim, a última National Geographic tem mesmo na capa o famoso busto de Nefertiti. São eles que o dizem, não sou eu: quando a capa é o Egipto, vendem a dobrar. E às vezes a triplicar.

E porquê este fascínio?

Já os gregos tinham uma admiração profunda pelo Egipto: Platão, Pitágoras, e outros, estiveram no Egipto e diziam-no com muito orgulho. Isto quer dizer alguma coisa. Paradoxal é que o Egipto que os letrados, os homens cultos, esses nomes sonantes da cultura grega, conheceram era já decadente mas ainda preservava muito do seu passado glorioso.

Os romanos mantiveram um turismo activo, que continuou no tempo das cruzadas, já com a religião cristã envolvendo-se na questão porque se acreditava que a Sagrada Família tinha estado refugiada no Egipto e que – pasme-se – as pirâmides tinham sido feitas pelos escravos hebreus. É verdade que ainda faltavam 1200 anos para eles aparecerem, mas isso são detalhes a que muita gente não liga.

O Egipto tem a atenção das pessoas porque elas sentem intuitivamente que as nossas origens não estão na Grécia. Antes do passado greco-romano já havia três mil anos de história. Mais do que a Grécia, Roma, Israel ou a China, o Egipto é um tema que granja simpatias.

O que é que falta à Grécia?

Mistério e sobretudo o legado arquitectónico. Na Grécia poucos são os túmulos encontrados. É muito raro. No Egipto, a descoberta de um túmulo carregado de riquezas galvaniza as pessoas, que sentem intuitivamente que aquilo é da humanidade.

A ideia que temos hoje do Egipto aproxima-se da realidade ou está tão misturada com mitos e histórias que já é outra coisa?

Há uma ajuda preciosa, que é um rei jovem, Tutankhamon. Os jovens ouvem que houve um rapazito que subiu ao trono com oito anos, morreu com 18 e que, sendo um rapaz, era rei e era deus – porque o facto de ter um rei com estatuto de deus não é para todas as civilizações. E ao verem esse rapazito, que não teve qualquer importância política, ter um túmulo com aquelas riquezas espantosas, ficam empolgados.

O paradoxal é que é um túmulo miserável, acanhado, diminuto, feito à pressa, e tinha aquilo tudo. O que não teria o túmulo de Ramsés II ou de Tutmés III ou dos grandes faraós do Egipto?


Luís Manuel Araújo durante uma visita ao Museu Nacional de Arqueologia

E há ainda há muito por descobrir?

O essencial está descoberto. Não há nenhum grande túmulo real por descobrir. Mas foram 3000 anos a sepultar, 3000 anos a pensar não neste mundo mas no outro. Eça de Queiroz, que visitou o Egipto em 1869, disse: ‘os egípcios fazem casas de barro e túmulos de granito’. Constroem para a eternidade. Os gregos constroem à medida humana. Num monumento grego apreciamos o equilíbrio, a harmonia, o humanismo. No Egipto o que vemos são pedras com várias toneladas arrastadas por homens, que não eram escravos, ao som de cânticos e hinos.

E tudo isto vem dar a uma coisa das mais notáveis que o Egipto legou: a ideia de que há outra vida. Inventaram, muito antes de outros povos, a ideia notável de que havia, além deste mundo, um outro, um paraíso. Pudera, já o tinham na terra: é um rio, o Nilo, que corre de Sul para Norte, com uma abundância de peixe e, ao contrário dos rios vulgares, banais, como o Mississipi, o Missouri, o Reno ou o Tejo, que têm cheias no Inverno, o Nilo tem cheias no Verão, quando há mais calor. Tudo por causa das grandes chuvadas da África negra.

Além disso, o Nilo passa pela Etiópia, cujas neves derretem no Verão e vão alimentar ainda mais o caudal. A partir de Outubro, Novembro, as águas recolhem ao leito deixando nas margens uma massa negra, esponjosa, riquíssima que em alguns casos dá para duas sementeiras por ano.

É um país de abundância, de bem-estar, de riqueza, mais para uns do que para outros, claro. Os camponeses trabalham imenso, mas tudo brota com uma enorme pujança. A terra é fértil, é uma terra negra. O paraíso já ali está. E eles tiveram a ideia de transportar tudo o que tinham nesta vida para um espaço mítico, um outro mundo. Porque a base do pensamento egípcio é o número 2. Só há vida quando há duas coisas. E como era o tempo em que não havia o mundo? Era o tempo em que não havia duas coisas.

Nenhum povo antes tinha tido a ideia de um outro mundo?

Que saibamos, não. Diriam alguns que a Suméria é mais antiga, a escrita foi inventada lá, mas os sumérios nunca conceberam a ideia de um paraíso. Quem diz sumérios, diz acádios, babilónios, assírios. Esta gente não tem a ideia de um paraíso. E para quê fazer o bem se não há recompensa?

É uma ideia de paraíso associada ao bem, a uma vida mais ética neste mundo?

Sim, a complementaridade é a base de tudo. Qualquer rio tem uma margem direita e uma margem esquerda. E um Norte e um Sul. O Nilo é um rio com uma geografia de uma simplicidade espantosa. Um país com um milhão de quilómetros quadrados que só tem um rio? É a simplicidade da geografia que vai condicionar o pensamento do Egipto, na política, na administração, na arte e nos conceitos que vivem da dualidade – o Sul e o Norte, o deserto e a zona fértil, o caos e a abundância. Isto vai gerar outra coisa: o Egipto e os outros, a ordem, a disciplina e o método, de um lado, e o caos e a desorganização do outro.

Há um interesse político em mostrar a ancestralidade, eu diria mais, a superioridade cultural do Egipto, perante as nações vizinhas. Só que isto vem chocar com o Islão, em que tudo começa com o Profeta

E a ideia do bem e do mal?

Essa é a parte final. O faraó é rei do Alto e do Baixo Egipto, senhor das duas terras. A vida e a morte. A seca e a cheia. A miséria e a abundância. O bem e o mal. Para que serve o paraíso? Para as pessoas viverem eternamente depois da passagem por esta vida. Então a agricultura não se renova sempre e o sol não nasce e morre todos os dias? A vida é um constante morrer e renascer. Chega-se à ideia de que tudo volta à vida. Por que não o Homem? Mas o mais importante é o salto que dão a partir daqui: a ideia de que é possível ressuscitar. É a ideia da ressurreição que outras religiões depois hão-de aproveitar.

E isso implica que o corpo esteja intacto, por isso esmeraram-se nas técnicas de mumificação e embalsamamento. A mitologia vem dar uma ajuda com o protótipo do deus que morre e ressuscita. O primeiro deus mais antigo, que saibamos, que sofreu a paixão, a morte e a ressurreição foi Osíris. Teve um irmão malvado, invejoso, lá está, o bem e o mal. E isto gera outra ideia, para mim a mais notável: é que o paraíso não é para todos, só está ao alcance das pessoas justas, solidárias, afáveis, que não fazem aos outros o que não querem que lhes façam a elas.

Surge aí uma ética que não havia nas civilizações anteriores?

As noções de bem e mal não são exclusivas do Egipto. Só que os egípcios enfatizaram esta questão, dando-lhe uma carga política e religiosa e fazendo do rei um modelo comportamental. E depois há uma palavra egípcia, que em português precisamos de muitas para resumir, que é “maet”. É a base da civilização e significa equilíbrio, harmonia, justiça, equidade, bom senso, solidariedade, afecto e, a nível político, método, disciplina, ordem. E o grande segredo de três mil anos de História? Organização. Sem isso não se fazem pirâmides. Nem diques, nem canais, nem celeiros.

E a ideia de inferno existe?

Mais tarde, passados mil anos, começamos a ver imagens infernais, tipos de cabeça para baixo, uns sem cabeça, num mundo inferior. Mas isso aparece nos túmulos só mais tarde, no Império Novo. Antes disso há o castigo de não ter sepultura. A privação de túmulo e de um embalsamento exemplar é o pior castigo que um egípcio pode ter.

Indo para versões que a cultura popular dá do Egipto: os escravos a serem chicoteados para construírem as pirâmides, que vemos por exemplo no Asterix e a Cleópatra, não correspondem à realidade?

Isso existiu. Escravatura sempre houve. Só que a Grécia e Roma vivem do trabalho da escravatura. Em Atenas há mais escravos que cidadãos. Assim – com todo o respeito – também eu inventava a democracia. Os escravos do Egipto não têm qualquer significado económico nem sociológico. Não têm qualquer expressão. Como capturar escravos se não há expansão, conquista? E para quê escravos se não são precisos para nada? Não é verdade que no Verão o Nilo sobe? O que fazer a milhões de camponeses cujo local de trabalho são os campos? Vão para as zonas mais altas e trabalham em obras públicas. O que são 10 mil escravos em dois milhões de camponeses?

As pessoas transportam a nossa maneira greco-romana de ver o mundo para o Antigo Egipto, que nada tem a ver com isso. As pirâmides foram construídas por camponeses. As pirâmides foram feitas com base na ideia da “maet”.

Peça da colecção egípcia do Museu Nacional de Arqueologia

Na sua leitura há uma aproximação clara entre o cristianismo e o Antigo Egipto.

A religião egípcia ainda fez outra coisa: transformou os homens em deuses. Quando se ia para o paraíso passava-se a ser um deus. Que eu saiba mais nenhuma religião fez isto. Isto implicou outra coisa notável que é a ideia de que cada um é responsável pelos seus actos.

Há uma certa democratização da morte, com o julgamento final. Desde o mais poderoso faraó ao mais humilde dos escribas, as pessoas iam a uma sala cujo juiz era implacável. Quem era? O deus Osíris. Que ouve as pessoas a dizer ‘eu não tirei o leite da boca das crianças, nem o pão da boca de quem tinha fome, não desviei as águas dos canais, não invoquei os nomes dos deuses em vão, eu nunca fiz mal a ninguém’. É o capítulo 125 do Livro dos Mortos, que muito depois é transformado nos Dez Mandamentos.

A proximidade é maior com o cristianismo do que com o judaísmo?

O judaísmo não tem a noção de vida eterna. A grande mensagem do Novo Testamento é essa: é possível ressuscitar, desde que se acredite. Não estou a dizer que Cristo foi beber as suas ideias ao Egipto. Não chego a essa conclusão. Mas a mensagem do cristianismo para o Egipto não trouxe nada de novo.

Uma das coisas surpreendentes quando se fala agora do túmulo de Nefertiti é que ainda haja coisas por descobrir.

Tem de haver sempre salas e túmulos por descobrir, tesouros por encontrar. Seja por onde for, o Egipto é inesgotável. Quando daqui a uns meses se concluir que não há nada lá atrás, a coisa arrefece, fenece e passa para outra.

O Egipto sempre fascinou mas só tarde começaram as escavações.

Sim, no século XIX. O interesse aí começa a ser mais científico. Há um francês chamado Auguste Mariette que vai para o Egipto e decide pôr cobro aos desmandos, à rapina. E não foi fácil. Só não levaram as pirâmides porque não puderam. Mariette consegue convencer as autoridades egípcias a exigirem um Serviço de Antiguidades que regulamente e atribua locais de escavação com método, e que se crie um museu no Egipto.

Que relação têm os egípcios de hoje com o Egipto Antigo?

A grande salvação das antiguidades deve-se muito a outro factor: o turismo.

Escravatura sempre houve. Só que a Grécia e Roma vivem do trabalho escravo. Em Atenas há mais escravos que cidadãos. Assim — com todo o respeito — também eu inventava a democracia

Mas a relação é sobretudo pragmática ou é mais profunda?

Há um interesse político em mostrar a ancestralidade, eu diria mais, a superioridade cultural do Egipto, perante as nações vizinhas. Só que isto vem chocar com a questão do Islão, em que tudo começa com o Profeta. E há a necessidade imperiosa de atrair viajantes. O turismo já foi a segunda grande fonte de riqueza do Egipto, depois do Canal do Suez.

Um dos seus livros é sobre o erotismo no Antigo Egipto – esse lado não choca também com o Islão actual?

O Egipto tem pela mulher, pela mulher que faz parte da História, que aparece na arte, que tem túmulos (não sabemos o que se passava com camponeses, barqueiros, pastores, pescadores) um apreço, uma veneração, um respeito muito superior a muitas mulheres dos países vizinhos e àquela que é a situação da mulher em muitos países actuais da região.

Há mulheres que conseguem governar o Egipto como reis, que atingem altos cargos de sacerdotisas, coisa que não se vê noutros povos. A mulher nunca aparece despida na arte, a não ser que seja uma serva a servir o banquete. As deusas egípcias, ao contrário das gregas e romanas, nunca aparecem despidas. E quando aparecem a exibir os seus corpos esculturais, é um erotismo inteligente, refinado, que faz apelo aos sentidos, é a rapariga de um poema que sai da água mas não vem despida, vem com o vestido molhado colado ao corpo. Isso é muito mais erótico do que a nudez. E ao contrário de outras religiões em que o homem é criado primeiro, no Egipto o homem e a mulher são criados ao mesmo tempo.

Quando nasce o seu interesse pelo Egipto?

Em 1979 houve uma exposição notável na Gulbenkian que reproduziu, com o tamanho original, o túmulo da rainha Nefertari. Fui com a minha turma. O que era aquele túmulo, aquela multidão de deuses, figuras estranhas, mas tudo com um ar de equilíbrio, de harmonia, de cor, de vida? O interesse começou aí, antes disso estudava a História Antiga em geral.

Em 1984, na sequência de um acordo cultural luso-egípcio, fui estudar para o Egipto durante um ano. Ia estudar o Egipto faraónico, nomeadamente a escrita, mas as condições eram horrorosas e dos quatro que fomos, fui o único que ficou até ao fim. Conheci pessoas que me ajudaram muito, fiz amigos, e o interesse que era latente aumentou, mas com muito sofrimento à mistura. Voltei, dei aulas no liceu, depois na Lusíada, e em 1987, quando abriu um concurso para a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa [onde esta conversa decorre, nas instalações do Instituto Oriental], concorri e aqui estou há 30 anos, o que é para mim uma imensa honra e motivo de orgulho.


Peça da colecção egípcia do Museu Nacional de Arqueologia

E desde o ano 2000 vai sempre, por alturas da Páscoa, ao Egipto acompanhado pelos seus alunos e quem mais queira juntar-se. No início, o turismo estava em alta.

Sim, com um inconveniente, eram multidões por todo o lado, os templos atulhados de gente. A crise veio beneficiar os grupos que agora estão com um à vontade impressionante para fruírem dos monumentos. Claro que a pressão dos vendedores é de grande voracidade, mas eu recomendo sempre às pessoas que tenham paciência porque as pessoas vivem com muitas dificuldades. A crise do turismo é dramaticamente real e veio afectar milhões de egípcios. O turismo está reduzido a cerca de 28, 26% e isto reflecte-se, claro. 

Nunca deixaram de ir?

Só não fomos no ano passado porque a situação estava mesmo má. Agora, a segurança é visível, por vezes ostensiva, sobretudo nas zonas nevrálgicas, com polícia mas também o exército. Sentimo-nos seguros. Fui sem qualquer medo. Tudo foi de uma tranquilidade impressionante. E cá estamos nós, de volta, sãos e salvos. 

fonte: Público