terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Um dos primeiros lápis de cor. Tem 10 mil anos, é de um ocre vivo


Artefacto raro foi descoberto no Reino Unido num local com vestígios de grupos humanos de caçadores-recolectores

Poderá ser um dos primeiros exemplos de um lápis de cor utilizado pelos nossos antepassados pré-históricos de há cerca de dez mil anos para colorir peles de animais, ou a sua própria pele, vasos ou a superfície de uma rocha. É pelo menos isso que propõe a equipa de arqueólogos da universidade britânica de York que descobriu esse lápis rudimentar junto de um antigo lago em Scarborough, na região do Yorkshire, no sítio arqueológico anteriormente conhecido de Star Carr, e que o estudou.

De um ocre vivo, a cor primordial da terra à qual nos habituámos nas pinturas pré-históricas, o artefacto mede apenas 22 milímetros, por 7 mm de espessura, e apresenta uma das pontas mais aguçada - tal como se espera de um lápis.

" A utilização da cor representava uma parte significativa da vida dos caçadores-recolectores e o ocre é aquela que fornece um vermelho vibrante", explica o coordenador do estudo Andy Needham, do departamento de arqueologia da Universidade de York, citado num comunicado da sua universidade. Essa cor específica, sublinha o investigador, "é muito importante no período Mesolítico [entre há 12 mil e nove mil anos] e foi utilizada numa série de formas diversas".

Sobre o lápis, que foi analisado do ponto de vista químico para se determinar a sua composição e fazer a datação - tem cerca de 10 mil anos - , Andy Needham garante que "é um objeto com grande significado", porque "permite ter uma uma imagem muito mais nítida de como seria a vida nesta região" há cerca de 10 mil anos, "sugerindo que este deveria ser, então, um local muito colorido".

Além deste lápis, a equipa encontrou também no mesmo local uma pequena pedra arredondada com a mesma coloração, que está riscada numa das faces, sugerindo que serviu também de fonte como produto colorante.

"Tanto um objeto como o outro foram encontrados numa zona que já se sabia que era rica do ponto de vista da produção de arte, por isso é uma possibilidade muito forte que eles tivessem sido usados nesse contexto", sugere o coordenador do estudo, dando como exemplos a sua utilização "para colorir peles de animais ou em trabalhos decorativos".

Para chegar a estas conclusões, a equipa que incluiu também arqueólogos das universidades britânicas de Chester e de Manchester, utilizou uma técnica avançada de micospectroscopia, que permitiu determinar o material de que são feitos e os sinais de manipulação humana que apresentam, demonstrando que serviram como colorantes.

A observação microscópica da pedra de forma redonda confirmou que ela foi alterada pela mão humana - riscada múltiplas vezes. Já em relação ao lápis, escrevem os autores no estudo que publicaram na revista científica Journal of Archaeological Science: Reports, "a sua forma alongada" e o facto de exibir quatro faces, embora grosseiras, "não são conformes à cristalização natural da hematite", o material de que ele é composto.

Os dois pequenos artefactos são portanto uma prova material importante das atividades de caráter artístico que se sabia terem sido praticadas no período mesolítico na região. Entre os objetos que anteriormente tinham recolhidos naquela zona consta, por exemplo, um colar, que é o mais antigo no género até hoje encontrado em Inglaterra.