domingo, 30 de março de 2014

“As experiências de quase-morte precisam de ser estudadas com seriedade”


A investigadora belga Vanessa Charland-Verville ADRIANO MIRANDA

Vanessa Charland-Verville é neuropsicóloga no grupo de Ciência do Coma e no Departamento de Neurologia do Hospital Universitário de Liège, na Bélgica. Neste momento, estuda o que se passa no cérebro das pessoas que vivem experiências de quase-morte.

Em 2010, a vida de Rom Houben entrou nas notícias. Este belga foi diagnosticado com síndrome do encarceramento. Isto é, apesar de paralisado, o doente esteve sempre consciente e começou aí um processo de recuperação que lhe permitiu voltar a comunicar com médicos e família. Esteve num hospital durante 23 anos, depois de um acidente que o tinha colocado no que se supunha ser um estado vegetativo. A partir daí, começou um processo de recuperação que lhe permitiu voltar a comunicar com médicos e família.

Vanessa Charland-Verville esteve no Porto, no âmbito do 10.º Simpósio da Fundação Bial Aquém e Além do Cérebro, que termina este sábado, na Casa do Médico, falando sobre casos de lesões cerebrais como este. Ao PÚBLICO conta também a sua experiência numa nova área de estudo na sua universidade, as experiências de quase-morte.

Fez parte da equipa que estudou a recuperação de Rom Houben, que esteve em estado de coma durante 23 anos.

Ele não esteve em coma. Os media têm-no dito assim, mas, por definição, não se pode estar em coma por mais de algumas semanas. Rom Houben foi mal diagnosticado, como outros doentes que vimos em Liège. Quando um doente não mostra movimentos, mesmo que esteja consciente, às vezes pode concluir-se erradamente que não está consciente e, infelizmente, isto acontece demasiadas vezes. São os casos de locked-in syndrome [síndrome do encarceramento]. Rom Houben estava completamente paralisado desde que tinha tido um acidente e, portanto, não podia dizer aos médicos que estava consciente.

Qual foi o processo que fez com que os médicos se apercebessem de que ele não estava num estado vegetativo?

Uma TAC feita pelo professor Steven Laureys [chefe da equipa de que faz parte Vanessa Charland-Verville] mostrou que o cérebro estava normal. Foi uma grande surpresa, mas o cérebro estava a comportar-se como um cérebro normal e consciente. É muito importante ter estas técnicas ao nosso dispor, mas infelizmente nem todos os locais têm acesso à ressonância magnética ou à TAC e fazem erros de diagnóstico com frequência. Com estes doentes, temos de estar certos acerca do diagnóstico. Depois fazemos exames comportamentais e temos as técnicas de neuro-imagem.

Como está Rom Houben neste momento?

Não nos encontramos regularmente, mas a família está a tentar trabalhar num dispositivo de comunicação em que ele escreve alguma coisa num teclado especial e comunica através de um computador. Está a fazer reabilitação física, mas o objectivo principal é tentar comunicar com a família.

Ele tenta comunicar com a família de uma forma diferente daquela com que comunicou com os médicos?

Depois de tantos anos sem poder falar ou mexer-se, a prioridade é ter um dispositivo que ajude a falar para tornar esse processo mais fácil.

Este tipo de descobertas coloca dilemas éticos. Estando na Bélgica, um país onde a questão da eutanásia é muito discutida, têm sido chamados para este debate?

Somos confrontados com estas questões algumas vezes. Depois de algum tempo em estado vegetativo, o cérebro começa a degenerar-se. Vemos alguns doentes em Liège para fazer um diagnóstico e depois falamos com as famílias, explicando isto e dizendo como está o cérebro da pessoa em causa. Depois de muitos anos inconsciente, o cérebro morre.

Mas já intervieram em algum processo que terminou com eutanásia?

É parte do nosso trabalho fazer estas questões e lidar com este tema. Mas, nos três anos que levo em Liège, nunca fomos confrontados com nenhum caso em que o doente tenha acabado por morrer por decisão da família.

Tem estado também a trabalhar em experiências de quase-morte. Como neuropsicóloga, qual é o seu papel no estudo destes casos?

Procuramos sempre a correlação entre a lesão cerebral e o comportamento. Faço duas coisas: tenho um trabalho clínico, onde trabalho com doentes com perturbações na consciência, que estão em coma ou num estado vegetativo. Mas também faço investigação. Faço uma avaliação neuropsicológica das funções cognitivas depois de uma paragem cardíaca. Sabemos que o tempo em que o cérebro não recebe oxigénio pode causar problemas de memória. Acedemos às funções cognitivas, mas também pergunto aos doentes se têm algumas memórias do período em coma ou do tempo em que estiveram no hospital. Entre 10 e 20% dos doentes reportam este tipo de memórias.

As memórias que os doentes contam são sempre similares?

Quando têm experiências de quase-morte, isso torna-se claro porque contam uma história que é bastante similar. São sempre questões similares: sentimentos de paz, sair do próprio corpo, estar num lugar onde nunca estiveram, ver uma luz brilhante.

Podemos comparar este tipo de memórias com outras percepções, como sonhos ou alucinações?

No ano passado, publicámos um artigo onde demonstrámos a diferença entre as experiências de quase-morte e as memórias imaginadas, como os sonhos. As memórias imaginadas são sempre intenções que não foram cumpridas e, quando as comparamos com memórias de eventos reais, vemos que as experiências de quase-morte são mais intensas em termos de percepções e conteúdo emocional. Os doentes dizem que é mais real do que o que é real. Baseando-nos nesse estudo, podemos dizer que estas experiências não são como as memórias imaginadas, porque o conteúdo é realmente muito mais intenso.

Também testam os doentes com tecnologia hospitalar?

É impossível aceder a experiências de quase-morte em tempo real. Podemos apenas avaliar a função cerebral ou as memórias depois do evento. O que estamos a tentar fazer agora é induzir experiências de quase-morte através de hipnose e recriar a experiência para ver o que o cérebro nos pode dizer sobre este fenómeno.

Este assunto está presente na cultura popular, fora da comunidade científica...

Há outras audiências interessadas no assunto. Mas acho que as experiências de quase-morte precisam de ser agora estudadas minuciosamente e com seriedade. Há pessoas que têm escrito livros dizendo o que lhes apetece sobre isto e agora temos de saber mais acerca das características das experiências de quase-morte e por que há pessoas que contam as mesmas coisas e o que está a acontecer no cérebro nesse momento. Temos que ser rigorosos acerca desse fenómeno.

fonte: Público

Descoberto planeta-anão para lá dos confins conhecidos do sistema solar



Diagrama do sistema solar, com o Sol, as órbitas dos planetas gigantes e a cintura de Kuiper no centro e as órbitas de Sedna (a laranja) e de 2012 VP113 (a vermelho) SCOTT SHEPPARD/INSTITUIÇÃO CARNEGIE PARA A CIÊNCIA

O resultado, que deverá obrigar a redefinir a visão actual do nosso cantinho do cosmos, também sugere, especulam os autores, a presença de um planeta muito maior que a Terra, ainda por detectar.

O sistema solar passa a ter oficialmente, a partir desta quarta-feira, um novo elemento: um pequeno planeta, designado 2012 VP113, que é o objecto mais distante do Sol jamais encontrado. O resultado foi revelado na revista Nature.

Este planeta-anão, cujos descobridores estimam ter 450 quilómetros de diâmetro (cerca de um sétimo do diâmetro da Lua), não é o primeiro a ser encontrado para lá dos confins conhecidos do sistema solar – nem sequer o maior. Mas a sua descoberta é “extraordinária”, nas palavras de Linda Elkins-Tanton, da Instituição Carnegie (EUA), porque “nos obriga a redefinir a nossa compreensão do sistema solar”, diz esta cientista em comunicado daquela instituição norte-americana.

O sistema solar tal como o conhecemos hoje pode ser dividido em três partes, a contar do Sol: os planetas rochosos (como a Terra); os gigantes gasosos (como Júpiter); e a cintura de Kuiper, um conjunto de objectos gelados, que inclui Plutão, situado além de Neptuno. Para lá desse aparente limite, só se conhecia até hoje um outro objecto do mesmo tipo em órbita solar: Sedna, planeta-anão descoberto em 2003 por uma equipa da qual também fazia parte Chadwick Trujillo, do Observatório Gemini (EUA e Chile) e um dos co-autores da presente descoberta. Com mil quilómetros de diâmetro, Sedna é mais pequeno do que Plutão.

Desde então, pensava-se que Sedna era único, explica o mesmo comunicado. Mas com a descoberta de 2012 VP113, fica agora claro que isso não é verdade e que ambos estes corpos – e provavelmente outros tantos milhares como eles ou ainda maiores – fazem parte de uma estrutura ainda hipotética do sistema solar: a nuvem de Oort interior, que se pensa ser um dos pontos de origem dos cometas.

Este é, de facto, o primeiro sinal de que essa região do sistema solar existe mesmo nos seus confins. “Sedna e 2012 VP113 poderão ser a ponta do icebergue de uma população de objectos distantes da nuvem de Oort interior”, escreve Megan Schwamb, especialista da Academia Chinesa de Taiwan, num comentário que acompanha a publicação dos resultados.

O planeta-anão 2012 VP113 é de facto o objecto mais distante jamais avistado no sistema solar: a título de comparação, a cintura de Kuiper acaba a uma distância do Sol equivalente a 50 vezes a distância daTerra ao Sol (ou melhor, a 50 unidades astronómicas ou UA) e a órbita de Sedna passa a 76 UA do Sol. Todavia, ambos estes objectos super-longínquos têm órbitas que os levam até a centenas de unidades astronómicas de distância do centro do sistema solar.

Mesmo durante a fracção da sua órbita em que mais se aproxima do Sol, 2012 VP113 permanece muito longe da nossa estrela, a umas 80 UA. E foi numa das suas passagens a essa distância que Trujillo e Scott Sheppard, da Instituição Carnegie (EUA), o conseguiram “capturar”. Para isso, utilizaram a Câmara de Energia Escura do NOAO, telescópio de quatro metros de abertura situado no Chile – um dispositivo capaz de varrer vastas regiões do céu à procura de objectos muito ténues.

Com base nos seus cálculos, os autores estimam que, dentro da nuvem de Oort interior, poderão existir cerca de 900 objectos com órbitas como a de Sedna e de 2012 VP113 – e com diâmetros superiores a mil quilómetros. “Alguns desses objectos poderão rivalizar em tamanho com Marte ou mesmo com a Terra”, diz Sheppard, citado pelo mesmo comunicado.

“A procura de objectos distantes da nuvem de Oort interior, situados para além de Sedna e de 2012 VP113, deve continuar, porque poderiam revelar-nos muitas coisas sobre a formação e a evolução do nosso sistema solar”, acrescenta Sheppard. Isto porque existem actualmente três explicações concorrentes da formação da nuvem de Oort interior. Num desses cenários, um planeta poderá ter sido expulso da região dos planetas gigantes, atirando objectos da cintura de Kuiper para mais longe; noutro, o sistema solar terá “capturado” um planeta extra-solar; noutro ainda, terá havido transferência de matéria aquando de um encontro do nosso sistema solar com outro. E quanto maior o número de objectos que forem sendo encontrados, mais fácil será determinar qual dessas hipóteses é a mais certeira.

Seja como for, a descoberta de 2012 VP113 revela algo que qualquer teoria da formação da nuvem de Oort interior terá de ser capaz de explicar: que as órbitas de Sedna e de 2012 VP113 têm características muito semelhantes.

Segundo os autores, isso sugere a existência de um objecto maciço, que ainda não foi possível ver, mas que está a arrastar estes corpos, perturbando as suas órbitas da mesma maneira. Sheppard e Trujillo especulam que uma "super-Terra" – ou um planeta ainda maior –, situado a centenas de unidades astronómicas do Sol, poderia ser responsável por esse efeito. Será que os planetas do sistema solar têm um grande “irmão” desconhecido?

fonte: Público

Chariklo, o primeiro asteróide com anéis


Ilustração científica do asteróide Chariklo e os seus anéis ESO/L. CALÇADA/M. KORNMESSER/NICK RISINGER

Até agora, conheciam-se apenas anéis à volta de planetas.

O corpo rochoso Chariklo está enfeitado por anéis, que o tornam o primeiro asteróide a apresentar estas características, até agora só identificadas nos planetas Júpiter, Saturno, Úrano e Neptuno.

Trata-se de dois anéis, densos e estreitos, cuja origem poderá estar numa colisão que criou um disco de detritos, segundo um comunicado de imprensa do Observatório Europeu do Sul (ESO), organização intergovernamental europeia de astronomia.

Descobertos a partir de observações em vários locais da América do Sul, incluindo o Observatório de La Silla do ESO, no Chile, os dois anéis estão “bastante confinados”, com três e sete quilómetros de largura, separados entre si “por um espaço vazio de nove quilómetros”.

O Chariklo tem 250 quilómetros de diâmetro e a sua órbita é entre Saturno e Úrano. É o maior membro de uma classe de objectos celestes conhecidos por Centauros, situados naquela região do sistema solar.

Até agora, é o corpo celeste mais pequeno do sistema solar a apresentar anéis em seu redor e o quinto com esta característica, depois dos planetas Júpiter, Saturno, Úrano e Neptuno. É provável que o asteróide tenha também, pelo menos, “um pequeno satélite à espera de ser descoberto”, refere o físico Felipe Braga-Ribas, do Observatório Nacional, tutelado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação do Brasil, e que é o principal autor do artigo científico que descreve estes resultados esta quinta-feira na revista Nature.

“Não estávamos à procura de anéis nem pensávamos que pequenos corpos como o Chariklo os poderiam ter, por isso esta descoberta – e a quantidade extraordinária de detalhe deste sistema – foi para nós uma grande surpresa”, assinalou Felipe Braga-Ribas, que liderou a equipa.

Aos anéis de Chariklo, os cientistas os nomes informais de Oiapoque e Chuí, dois rios nos extremos Norte e Sul do Brasil.

fonte: Público

sábado, 29 de março de 2014

Estrelinha de Santa Maria ameaçada de extinção


A ave mais pequena da Europa, a estrelinha de Santa Maria, nos Açores, corre o risco de extinção devido à degradação do seu habitat, encontrando-se na lista dos 13 vertebrados mais ameaçados do país.

"É o próprio Instituto Nacional de Conservação da Natureza e da Biodiversidade que plasma a estrelinha de Santa Maria [ou estrelinha de poupa] com o estatuto de perigo de extinção", referiu à agência Lusa o coordenador do Clube de Amigos Defensores do Património de Santa Maria, José Andrade Melo.

A estrelinha de Santa Maria, que se alimenta de insetos, vermes e aranhas, possui apenas oito a nove centímetros de comprimento e 12 a 14 de envergadura, é considerada importante no controlo biológico de algumas espécies e muito procurada no âmbito da atividade de 'birdwatching' (observação de aves).

José Andrade Melo explicou que a estrelinha de Santa Maria sofreu uma "regressão significativa" do seu efetivo nas duas últimas décadas, à semelhança do que aconteceu com o priolo, devido à perturbação do seu habitat natural e consequente redução dos alimentos.

A estrelinha de Santa Maria, que possui o nome científico de 'regulus regulus sanctae-mariae', vive em zonas dispersas na ilha, concentrando-se na zona do Pico Alto e no Barreiro da Faneca. Prefere os espaços com arbustos que contenham espécies da laurissilva (floresta húmida subtropical apenas existente na Macaronésia) para pernoitar e nidificar.

"O facto de a ave estar confinada a um espaço tão diminuto em termos territoriais, como é a ilha de Santa Maria, por si só já é merecedora do estatuto especial de conservação e da obrigação política e científica de criação de um plano de salvaguarda", defendeu José Andrade Melo.

Há dois anos, o Clube de Amigos Defensores do Património de Santa Maria e a representação local da associação ecologista Amigos dos Açores, com o apoio de várias entidades, propuseram ao Governo Regional que a estrelinha de Santa Maria fosse designada "a ave de 2012", visando alertar para a sua existência e perigo de extinção.

A proposta foi feita ao então secretário regional do Ambiente, a quem sublinharam a necessidade de realizar um plano de salvaguarda da estrelinha, através de uma equipa multidisciplinar.

Segundo José Andrade Melo, "houve aceitação" da proposta de conservação da espécie, mas "até hoje, para além da promessa, o que houve foi um pequeno estudo de inventariação do seu habitat preferencial".

"Em termos de quantitativo do efetivo populacional, nada existe feito, de uma forma muito clara, tendo-se plantado, entretanto, uma pequena mancha de árvores preferenciais da estrelinha, na zona do Pico Alto, com vegetação endémica, o que é manifestamente insuficiente", considerou.

José Andrade Melo defendeu, para além de um estudo que quantifique o efetivo populacional da ave e de uma elencagem das suas reais ameaças, um plano de ação, à semelhança do que foi desenvolvido para o priolo, ave endémica da ilha de São Miguel.


Vídeo com raio-X mostra como mosca bate as asas

Vídeo com raio-X mostra como mosca bate as asas


Um grupo da Universidade de Oxford usou raio-X produzidos por um acelerador de partículas do Instituto Paul Scherrer, na Suíça, para perceber como uma mosca bate a suas asas. O resultado final é descrito pela New Scientist como "surreal".

Segundo esta publicação científica, o vídeo está centrado no tórax da mosca e mostra os músculos que a fazem voar.

Os músculos maiores aparecem em vermelho, laranja e amarelo fornecem a energia que mantém a mosca no ar. Já os mais pequenos - a verde, azul e ciano - são usados para a direção.


Construído primeiro cromossoma artificial da levedura


Biologia sintética deu novo salto com a produção em laboratório de cromossoma alterado que funciona no organismo

Letra a letra, e aminoácido a aminoácido, num laborioso trabalho de formiguinha de laboratório que durou sete anos: um grupo de investigadores conseguiu pela primeira vez construir um cromossoma artificial de um organismo complexo, neste caso a levedura, que depois se integrou com sucesso, e a funcionar " naturalmente", nas células desse organismo.

O feito, que foi ontem publicado on line pela revista Science, é considerado um novo passo de gigante no trabalho científico em biologia sintética e vida artificial, áreas que contêm a promessa de novas gerações de medicamentos, de produtos alimentares ricos e até de biocarburantes revolucionários.


terça-feira, 25 de março de 2014

Há 1800 anos um soldado romano escreveu sete vezes à família, a última carta chegou até nós


O papiro foi descoberto no Egipto, na cidade onde vivia a família do soldado romano que o escreveu CORTESIA DA BIBLIOTECA DE BANCROFT/UNIVERSIDADE DA CALIFÓRNIA

O papiro de um soldado romano enviado à família foi encontrado no final do século XIX, ficou por decifrar durante mais de 100 anos por estar em mau estado. Aurelius Polion tinha saudades de casa e estava à espera de receber notícias dos familiares.

A frase faz parte de uma mensagem com 18 séculos: “Rezo noite e dia para que estejam de boa saúde e presto obediência contínua aos deuses em vosso nome.” Aurelius Polion, cidadão romano, legionário, escreveu estas palavras para a sua família por volta do ano 214 depois de Cristo (d.C.). O papiro foi encontrado no final do século XIX, mas por estar tão degradado só recentemente é que foi decifrado do grego antigo e traduzido para inglês. Através do seu estudo, publicado no Bulletin of the American Society of Papyrologists, ficamos a conhecer as saudades de um filho e de um irmão, que pede notícias de casa.

Cerca de 4000 quilómetros separam a Panónia Inferior, a província romana onde Aurelius Polion estava colocado (hoje na região de Budapeste, na Hungria), e a cidade de Tebtunis, a 130 quilómetros a sudoeste do Cairo, no Egipto, onde a família do legionário vivia. Foi nos vestígios desta cidade egípcia, dominada por Roma, que os egiptólogos britânicos Bernard Grenfell e Arthur Hunt encontraram, no final do século XIX, este e outros papiros.

“Não sei quantas cartas de soldados romanos sobreviveram ao todo”, diz ao PÚBLICO Grant Adamson, que em 2011 participou no programa de Verão da Sociedade Americana de Papirologistas, onde decifrou este papiro, guardado na Biblioteca de Bancroft, na Universidade da Califórnia, em Berkeley, Estados Unidos. Segundo o investigador, que é da Universidade de Rice, em Houston, Texas, terá havido muitas cartas, mas poucas terão sobrevivido. Esta carta só sobreviveu porque no Egipto “o clima é apropriado para a sua preservação”.

A carta dirige-se ao irmão, à irmã e à mãe. “Não paro de vos escrever, mas vocês não se lembram de mim. Mas eu faço a minha parte de vos escrever e não paro de vos ter presentes (na minha mente) e de vos trazer no coração. Mas vocês nunca me responderam, falando da vossa saúde, de como estão. Estou preocupado convosco, porque, apesar de receberem frequentemente cartas minhas, nunca respondem, para que saiba de vocês.”

E continua a exigir notícias da família: “Enviei-vos seis cartas. No momento em que vocês (?) me tiverem na mente, deverei obter uma licença do (comando) consular, e irei ter convosco para que saibam que sou vosso irmão. Porque não exijo (?) nada de vocês para o exército, mas culpo-vos porque, apesar de vos escrever, nenhum de vocês (?) … tem consideração. Vejam, o vosso (?) vizinho … Sou o vosso irmão.”

Grant Adamson defende que o legionário terá nascido como egípcio, mas que, entretanto, adquiriu cidadania romana. A idade do documento foi inferida pelo estilo da escrita, pelo facto de o soldado ser romano – em 212 d.C. foi dada cidadania romana a muita gente – e pela referência ao “comando consular”, já que a região da Panónia Inferior só passou a ter governo consular depois de 214 d.C.

Aurelius Polion terá sido, assim, voluntário do exército romano, pertenceu à Legio II Adiutrix, ou segunda legião auxiliar, numa altura em que o serviço militar era de 20 anos, mas num tempo calmo, sem guerras. “É precisamente por as coisas estarem pacíficas que ele tem tempo para escrever todas estas cartas”, diz Grant Adamson. “Uma das coisas que não esperava encontrar foi a referência à obtenção da licença militar – que implica um soldado ter de fazer um pedido [de licença], que depois seria dada ou negada pelo comandante.”

O soldado falaria egípcio e grego com a família – Tebtunis esteve sob ocupação grega antes de passar a pertencer a Roma – e latim na legião. A carta, no entanto, foi escrita em grego. “O egípcio era falado, mas não era escrito pela maioria dos egípcios, e a sua família quase de certeza que não saberia muito latim”, explica o investigador, acrescentando que na altura a literacia da população era muito fraca.

Aurelius Polion terá pertencido a uma família de classe baixa com alguns privilégios, mas não escreveria bem: “Ele até escrevia algumas letras do alfabeto latino em vez do grego e usava alguma pontuação latina.”

O documento terá viajado de mão em mão até chegar a Tebtunis. Lido hoje, é fácil sentir empatia pelos sentimentos que transparecem. “Reflecte as emoções de um soldado no mundo antigo”, diz April DeConick, orientadora do trabalho de Grant Adamson, citada num comunicado da Universidade de Rice. “As suas emoções não são diferentes das dos soldados de hoje, que querem voltar para casa.”

fonte: Público

Moas: estas aves estavam bem de saúde e depois chegámos nós


Ilustração recente de Euryapteryx curtus com o pescoço numa posição mais natural
MICHAEL B. H.


Ilustração antiga da espécie Megalapteryx didinus, com o pescoço representado como se pensava na época. MEGALAPTERYX DIDINUS


O investigador Morten Allentoft fura um osso de moa para extrair ADN DR


Richard Owen, biólogo inglês que identificou os moas, ao lado de um esqueleto de um Dinornis
JOHN VAN VOORST

Uma análise genética de ossos de quatro espécies de moas confirma que estas aves não estavam em declínio antes de o homem colonizar a Nova Zelândia, como já se pensou. A última extinção da megafauna dos últimos cem mil anos foi tudo obra nossa.

Quando os europeus chegaram à Nova Zelândia, no século XVII, encontraram vários animais, como a ave kiwi, que tornam aquelas ilhas um local ímpar da biodiversidade da Terra. Mas as nove espécies de moas, que em tempos tinham reinado ali, já tinham desaparecido. Estas aves eram uns gigantes num mundo sem mamíferos terrestres. Sem asas, com dois metros de altura, 250 quilos, e o pescoço e a cabeça tombados para a frente, a fêmea do  Dinornis robustus, o maior dos moas (é um substantivo masculino) e uma das maiores aves que já caminharam pela Terra, teria sido impressionante. A espécie foi observada pela última vez pelo povo maori, que se instalou na Nova Zelândia no século XIII. Em menos de 200 anos, os maori caçaram os moas e alteraram os ecossistemas, levando as nove espécies e outras aves à extinção.

Análises genéticas dos ossos destas aves levaram a pensar que os moas já estavam em declínio antes de a Nova Zelândia ter sido colonizada. Agora, um estudo que analisou marcadores genéticos de 281 indivíduos de quatro espécies diferentes de moas prova que, nos últimos milénios antes da chegada do homem, a diversidade genética destas quatro espécies não estava em declínio.

“As pessoas têm muitas vezes dificuldade em aceitar que os povos ‘primitivos’, com uma tecnologia limitada, podem causar a extinção de grandes animais”, diz ao PÚBLICO Morten Allentoft, um dos autores do artigo publicado na última edição da revista norte-americana Proceedings of the National Academy of Sciences. “Por isso, as pessoas procuraram outras causas como as alterações climáticas. Algumas análises genéticas feitas inicialmente, com base em pouca informação, sugeriam que os moas já estavam em declínio antes de os humanos chegarem à Nova Zelândia”, acrescenta o investigador da Universidade de Copenhaga, na Dinamarca.

“As nossas análises mostram que os moas tinham populações estáveis durante os 5000 anos antes da chegada dos humanos. Não há indicações de um declínio pré-humano da população. De facto, parece que as populações estavam a aumentar de tamanho”, explica Morten Allentoft.

Os moas fazem parte do mesmo grupo de aves dos kiwis, das avestruzes ou das emas. Mas, juntamente com os kiwis, separaram-se há mais tempo daquela linhagem. As avestruzes e as emas ainda conservam as asas, ao contrário dos moas. Esta divisão tornou-se possível depois de as duas ilhas principais que formam hoje a Nova Zelândia se terem separado da Austrália e da Antárctida há mais de 75 milhões de anos, quando os dinossauros ainda dominavam a Terra.

Agora, a equipa analisou fósseis de moas provenientes de cinco locais no Norte da província de Canterbury, que fica no Leste da Ilha Sul da Nova Zelândia. A maioria destes fósseis já pertenciam a colecções de museus do país, mas alguns foram escavados e tirados de um pântano.

Além do Dinornis robustus, os ossos estudados pertenciam a animais das espécies Euryapteryx curtus, Emeus crassus ePachyornis elephantopus. O fóssil mais velho tem 13.000 anos e o mais novo tem apenas 650 anos, já depois da presença dos maori.

A equipa conseguiu obter amostras de ADN de animais distribuídos ao longo de milénios. Isso permitiu avaliar a diversidade genética daquelas populações durante aquele tempo para responder se, de facto, os moas estavam em declínio antes do aparecimento dos maori na Nova Zelândia.

“Há uma correlação entre o tamanho da população e a diversidade genética. As pequenas populações têm pouca diversidade genética. Como analisámos os moas ao longo do tempo, pudemos medir a diversidade genética ao longo desse tempo”, explica Morten Allentoft.

Como estas aves desapareceram há relativamente pouco tempo e há uma abundância dos seus vestígios (desde ossos, tecidos até fezes secas, os coprólitos), tem havido nas últimas décadas uma aposta forte na análise genética, que já contribuiu para se conhecer a própria paleogeografia da Nova Zelândia. Assim, a equipa utilizou ADN das mitocôndrias – as chamadas “baterias das células” –, e seis marcadores do ADN do núcleo, especialmente desenvolvidos para os moas.

fonte: Público