sábado, 14 de outubro de 2017

Descoberta do nome de Alá em artefactos vikings intriga cientistas


Bandolete bordada com os nomes de Alá e Ali encontrada em sepultura viking

Arqueólogos suecos anunciaram ter encontrado de caracteres árabes em mantas mortuárias encontradas em cerimónias funerárias vikings. A descoberta pode levar a novas informações sobre a influência do Islão na Escandinávia.

Não é a primeira vez que surgem indícios de que os mundos dos vikings e dos muçulmanos se cruzaram na história da humanidade.

Segundo um estudo apresentado em 2015, um anel encontrado no século 19, durante escavações no sítio arqueológico de Birka, na Suécia, pode ser a prova de que terá havido contacto entre os Vikings e a civilização Islâmica.

Mas uma nova descoberta, após uma análise de tecidos encontrados em túmulos dos séculos IX e X, vem agora revelar detalhes excitantes sobre o contacto entre os mundos viking e muçulmano – entre os quais se destacam os bordados em prata e seda com as palavras “Alá” e “Ali”.

Segundo os autores da descoberta, realizada por investigadores da Universidade de Uppsala, os fragmentos estavam curiosamente esquecidos há mais de 100 anos num arquivo da universidade sueca, classificados como material genérico.

Padrões diferentes

A nova descoberta foi feita pela arqueóloga Annika Larsson, da Universidade de Uppsala. A investigadora, especializada em tecidos, ficou intrigada ao constatar que as amostras, recuperadas em escavações ao longo dos últimos dois séculos, tinham origem na Ásia Central, Pérsia e China.

Larsson explica que os padrões geométricos encontrados nos tecidos eram diferentes de tudo o que tinha visto na Escandinávia. “Lembrei-me de que tinha visto este tipo de desenhos em tecidos da época da ocupação árabe da Península Ibérica“, conta a arqueóloga ao site científico sueco Forskning.

A arqueóloga percebeu então que estava a analisar caracteres de uma forma arcaica de escrita árabe, a kufic. Duas palavras apareciam com frequência. Com a ajuda de um colega iraniano, Larsson identificou uma das palavras como “Ali”, o nome do quarto califa do Império Islâmico, que viveu no século VII.

A outra deu mais trabalho. Foi como resolver um quebra-cabeças: depois de ampliar as letras e examiná-las em diversos ângulos, a especialista descobriu que se tratava de um mosaico formado pelo nome “Alá” – Deus, em árabe.

Larsson encontrou as duas palavras em pelo menos dez dos mais de cem fragmentos que analisou – e sempre juntas. “O nome Ali é repetido várias vezes ao lado de Alá“, explica. Ali era primo de Maomé – e seu genro, pois casou-se com Fátima, uma das suas filhas, e tornou-se o quarto líder da comunidade depois da morte do profeta.

“O uso de Ali sugere uma conexão xiita”, diz Amir De Martino, especialista do Islamic College, universidade de estudos islâmicos com base em Londres. Os nomes de Alá e Ali aparecem frequentemente em padrões enigmáticos no interior de túmulos e livros de ramos xiitas como os alevis e bektashis, mas sempre acompanhados do nome Maomé.

Quem estava nas sepulturas

A descoberta lança também perguntas sobre os ocupantes das sepulturas. “Não podemos descartar que as pessoas enterradas fossem muçulmanas. Análises de ADN em outras escavações de túmulos vikings revelaram que os seus ocupantes eram originários de locais distantes, como a Pérsia, em que o Islão já era dominante.”

No entanto, a arqueóloga acredita que o mais provável é que a descoberta mostre a influência de ideias islâmicas em rituais fúnebres vikings – noções, por exemplo, de vida eterna no paraíso após a morte.

Em estudos anteriores, Larsson identificou a presença generalizada de tecidos em seda em sepulturas escandinavas do tempo dos vikings. “E segundo diz o Corão, curiosamente,os habitantes do paraíso vestem-se de seda“, nota a arqueóloga.

Larsson acredita que a sua descoberta oferece possibilidades promissoras. “Agora que podemos examinar padrões vikings de forma diferente, estou convencida de que encontraremos mais inscrições islâmicas em outros tecidos – e talvez até em diferentes artefactos”.

A equipa da arqueóloga está agora a tentar, com o apoio do Departamento de Genética da universidade, estabelecer as origens geográficas dos corpos envoltos nos tecidos.

fonte: ZAP aeiou